sábado, 17 de março de 2012

Review 2



Evanescence - Evanescence

Comentários gerais sobre o álbum: Bom, é necessário explicitar alguns pontos pessoais e alguns gerais logo de início a fim de que a crítica fique embasada de forma mais clara: o Evanescence, em minha opinião, é uma banda que só pode ser compreendida de uma forma justa se tiver suas músicas cantadas junto com a vocalista, Amy Lee. Nunca acreditei que fosse uma dessas bandas feitas só pra se ouvir, se fosse não só não geraria o mesmo sentimento como perderia demais na qualidade e alcance. Evanescence é uma banda americana de rock alternativo, então fica complicado analisar em termos de ‘trabalho’ no mesmo nível analisado nas músicas que usam grandes sinfonias – ex. Within Temptation.

De forma mais geral, há um sintoma muito presente nas bandas atuais: elas se aceleraram e se simplificaram. Acredito que isto se dê da continuidade de uma tendência mundial que tem seu processo iniciado não há muito tempo, porém com o aumento gradual da comunicação global ela vem se acentuando também na música, principalmente americana e das culturas que bebem mais diretamente dela. Se as bandas europeias tem aderido à essa maneira produtiva, como não iria uma banda dentro do próprio Estados Unidos? Eu só queria deixar esses pontos claros porque não adianta julgar essas bandas com negatividade, é uma tendência extenuada que não oferece muita frente de batalha para quem se encontra justamente no centro.

What you want: A música inicial já apresenta a tendência com o uso de um ritmo mais acelerado e de toques característicos de, digamos assim, ‘outros estilos musicais’. A apresentação do refrão, ou seja, os segundos anteriores ao refrão foram bem pensados de forma que uma parte encaixa com a outra sem dificuldade sonora. Para retornar à música eles usaram uma batida bem rápida com a bateria que também combinou com o momento. O teclado durante a música fica procurando um lugar e achei isso desnecessário, mas de resto é um bom som. Destaque para a constante mudança de ênfase da bateria.

Made of stone: A presença de instrumentos é escassa nesse álbum, no entanto eu acho que foram bem utilizados na maioria das músicas. Nessa, por exemplo, o foco todo do instrumental é somente o de acompanhar a Amy, tanto que colocaram uma segunda voz em algumas partes para querer dizer: ‘Hey, nessa música você deveria estar prestando atenção à vocalista!’ e eu acho que é bem isso, o instrumental dela não me cativou pelo menos.

The change: ‘The change’ se apresenta no primeiro minuto de música. Penso que ela cai no mesmo esquema da anterior até esse ponto, o instrumental é um mero meio, tanto que se agita quando chega ao refrão e acalma logo posteriormente a ele. Mas ela apresenta algo diferente mais pra frente em 02:12 min e vai até 02:43 min quando cria uma introdução para um refrão diferenciado.

My heart is broken: Um encaixe de faixas que mantém a guitarra e apresenta um uso devido do piano. Até 0:23 min há uma apresentação de uma das camadas marcantes dessa música, um misto de voz e piano muito bem formado. A partir de 0:24 min se apresenta outra camada: voz, guitarra, bateria e o piano mais acelerado. Em 0:55 min o piano é praticamente sufocado. Essa é uma das estratégias musicais de efeito, de forma que, quando ele retornar, cause uma impressão maior. E em 01:42 min é exatamente tal efeito que se dá. O esquema se repete com pouquíssima variação sonora até 02:51 min: primeira parte apresenta voz, guitarra e bateria, já a segunda põe o piano como pano de fundo para o momento seguinte que vai pegar as características da primeira camada – voz e piano. Sempre penso nessa faixa como uma das mais complexas e admiráveis do álbum porque envolveu muitas camadas e a troca constante de lugar dos instrumentos.

The other side – Essa música faz um misto de ênfase instrumental/voz que deve ser pensado minuciosamente como foi feito em ‘My heart is broken’. O início é simples: um compasso de bateria, a guitarra acompanhando e enfim a voz que entra pra seguir esses passos. O instrumental faz leves pausas entre alguns segundos. Eu não sei a opinião geral, mas isso sempre foi um antídoto de amor pra mim. A pausa, mesmo que realmente relapsa como é esse o caso, cria uma expectativa ínfima e que, quando é preenchida, propicia prazer.

O misto que eu disse anteriormente faz parte desse ciclo: o instrumental acompanha a vocalista até o refrão, nesse ponto ela ganha a ênfase. Mesma coisa ocorre até 02:28 min, é aí que instrumental e voz revezam a atenção do ouvinte. Nem preciso dizer que a jogada com o piano e o instrumento de cordas é brilhante, né? E eu digo jogada porque não eram instrumentos esperados e foram isolados somente para servir ao propósito de tornar a música mais agradável naquele momento. Brilhante.

Erase this – Se há duas faixas que eu não soube exatamente como interpretar são ‘Erase this’ e ‘Sick’, não soube muito na época que o álbum foi lançado e não sei ainda agora. Mas vou tentar, já que a proposta aqui é essa, explicar porque essas duas faixas não me apetecem muito. Em ‘Erase this’ eu não consigo encontrar qual foi a intenção de quem produziu, minha cabeça não sabe em qual som se manter, então ela fica indo de um lado para o outro e isso me incomoda um tanto. A faixa é agradável se o ouvinte se propuser a cantá-la, principalmente porque há um clímax em 02:18 min que é gostosinho de acompanhar.

Lost in Paradise – Masterpiece. É a primeira música desacelerada no álbum até então, a introdução lenta com o piano é, no mínimo, muito relaxante. A faixa é linda, muito bem composta. É o que eu chamo normalmente de uma faixa harmônica – isso quer dizer que tudo encaixa sonoramente de forma a te incluir na música e não te deixar nela de forma passiva, na de um ouvinte. Para isso, ela te toca não só no uso dos instrumentos mas também na letra e na forma como esta é utilizada. A guitarra veio a calhar porque é uma intensificadora nas emoções que a música já tinha oferecido. Essa faixa dispensa análise detalhada, ela é perfeita por si e eu espero que todos que a ouçam possam sentir-se de forma similar sobre ela. :)

Sick – A ‘Sick’ já me gera um desgosto diferente se comparado ao gerado por ‘Erase this’. Essa música começa de uma forma apreciável e lá pra 0:40 min ela muda a ideia que havia direcionado naqueles primeiros segundos. A repetição de frases e a agudeza acelerada na voz da Amy fizeram com que a faixa destoasse do padrão de músicas do álbum. Por um lado isso é bom porque mostra uma capacidade de ir além da banda, por outro ela gera um sentimento de estranheza que, eu pelo menos, ainda não consegui superar. Talvez a colocação da nova ideia não tenha ficado boa como uma faixa oito, talvez fosse melhor tê-la colocado para fechar o álbum.

End of the dream – Ah, a arte de deixar a bateria em um plano superior ao da guitarra. Então, veja bem, ‘End of the dream’ é uma música bem intensa: ela tem a proposta de uma ênfase diferenciada que, como eu explicitei, é na bateria e que frequentemente intercala com a vocalista. Portanto, é uma música equilibrada, o que é complicado no campo do rock porque não se pode deixar muito a guitarra de lado. O destaque é voltado para essa ‘diferenciação’.

Oceans – É engraçado como existe certo padrão musical: a faixa ‘comercial’, a ballad, a que rememora os álbuns anteriores e a que traz as novas tendências. Isso é quase tão sintomático que é difícil não acabar classificando. ‘Oceans’ é a faixa que mixa as tendências novas com os traços do Evanescence anterior. É uma canção que eu particularmente gosto muito. Ela se inicia com um vocal ritmado e demora relativamente a introduzir o uso de guitarra, também deixa em evidência o baixo em algumas partes. A utilização de uma segunda voz exatamente do jeito que foi colocada deu a ideia do movimento de oceano, ou pelo menos assim me pareceu e, embora a música seja repetitiva no âmbito do refrão, ela tem algo de inovador a oferecer nos pontos que destaquei.

Never go back – Essa é outra faixa que nada tem a acrescentar e é bem parecida com a anterior: bateria e guitarra em primeiro plano e dá para ouvir um baixo se agitando logo de início e em algumas partes localizadas; difere de ‘Oceans’ só no aspecto de não introduzir as novas tendências, todo o resto do instrumental já foi bem reutilizado ao longo do álbum. Destaque para 02:24 min com uma nova forma de sequenciar piano, voz e bateria.

Swimming Home – ‘Swimming Home’ é a música lenta dentro da nova tendência musical. A batida seguida de uma letra romântica já é ouvida com frequência nas rádios mundiais e é a mesma fórmula usada de formas delicadamente diferentes – over and over again. Penso que o que há para oferecer nessa faixa é somente a voz da Amy.

PS: Há uma faixa extra que vale muito a pena conferir: ‘Say you will’, ela cai dentro do estilo mais Fallen de fazer música.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Review 1




Within Temptation - The Unforgiving

Comentários gerais sobre o álbum: eu penso que a ideia toda de construir um álbum musical em cima de uma história em quadrinhos foi realmente brilhante, porém a qualidade da produção sonora gerada pela voz da Sharon den Adel diminuiu em alcance de forma igualmente proporcional. Então dá pra se dizer que é um álbum devidamente equilibrado, perdeu ali e trouxe algo de novo aqui.

Shot in the dark – O início dessa música gera uma expectativa muito grande sobre o álbum, penso eu, e nem preciso dizer que o vocal pausado ajuda nesse efeito, não é? Como ocorre em geral nas faixas do álbum em questão, o fundo musical é raso, no sentido de poucos instrumentos; mas rico no que dá pra tirar de cada um deles. O direcionamento é voltado para o refrão de forma que dessa música é basicamente isso que dá pra tirar: ela vai até o refrão de forma pausada, ganha vida, volta do refrão com energia, mas ainda pausado e em cada um dos refrãos recobre a dualidade. Total destaque nessa faixa para o vocal pausado.

In the middle of the night – Essa música se inicia como se ela desse continuidade à energia apresentada na anterior, tanto que ela é justamente mais acelerada. Nessa faixa a banda apresenta de fato a mudança musical deles: a melodia entre o não-refrão e o refrão não precisa ser necessariamente harmônica como antes era de forma que costumava conectar uma parte à outra sem qualquer estranheza, isso já não ocorre mais. A ligação existe, só que não ocorre da mesma forma. Afinal, é um tanto esquisito o refrão subir de forma demasiada, embora os tons combinem, ou seja, é diferente mas em nenhum aspecto forçado. Destaque para as partes de guitarra e teclado pós-refrão.

Faster – Faster é a faixa mais comercial do álbum. É compreensível por que a escolheram para promover o álbum uma vez que ela é fácil de ser decorada e tem um instrumental bem catchy. Ela é o melhor exemplo do que eu disse anteriormente sobre uma música que encaixa no refrão sem estranheza, é um desaguar natural inclusive que acontece nessa única música por razões não tão complicadas de serem entendidas como explicitado anteriormente.

Fire and ice – A primeira música que desacelera o álbum e te introduz num novo ritmo é essa. Música linda e muito bem trabalhada por sinal. Ela trabalha, de forma inédita nesse álbum, a voz da Sharon em primeiríssimo plano. Destaque para uma primeira metade de música que não precisa te convencer de absolutamente nada. A segunda metade já retorna aos poucos para preparar o ouvinte em relação à música seguinte, com um acompanhamento ritmado de bateria e coro.

Iron – E chegamos à minha faixa favorita. Iron é a música mais complexa do ‘The Unforgiving’ e por isso mesmo ela me lembrou bastante dos trabalhos anteriores e ajudou a matar a saudade da sinfonia costumeira. Existe um jogo instrumental que funciona em ciclo: as guitarras, o teclado e o vocal repetem-se até chegar em 03:26 min, momento no qual ocorre o clímax não só da música mas também, e principalmente, do álbum – uma vez que essa é a faixa que divide o álbum na metade. No final da faixa o tom da vocalista desce um pouco, o que torna a música de longe a mais forte e marcante dessa obra.

Where is the edge – Veja bem que Iron se encontra entre as duas faixas mais lentas não por mera coincidência, isso a torna especial bem como destaca ambas ‘Fire and Ice’ e ‘Where is the edge’. Essa faixa introduz alguns traços da música eletrônica, os quais serão a ênfase da faixa que a segue. No entanto, o destaque de ‘Where is the edge’ é difícil de classificar porque é uma música que combina um refrão longo com pequenos detalhes eletrônicos, portanto é uma inovação da banda por si só.

Sinéad – Se podia ser difícil reconhecer traços eletrônicos em ‘Where is the edge’, ‘Sinéad’ não deixa quaisquer dúvidas: você estará entrando num ambiente novo, descolado, uma mega mistura de rock clássico do estilo anos 80 com as danceterias atuais. Ela te mergulha numa mera introdução que se prolonga até 01:35 min e retorna em 02:21 min. E é de fato uma inovação pro Within Temptation que possui uma ideia excelente, porém ela peca no sentido amortecedor da música, a faixa não tem nenhum ponto realmente forte e a letra que tende a rimar de duas em duas frases pega, mas não cativa.

Lost – Outra separadora de oceanos. Essa é outra faixa que deixa a voz da Sharon em evidência uma boa parte do tempo e tem um refrão muito bonito. O acompanhamento dos instrumentos também não é gigante, somente o necessário. Acredito eu que essa faixa foi mais pensada no sentido de fazer a letra tocar os ouvintes porque ela aperta os botões certos para tal: a mudança de tom no final do refrão e a entrada de uma voz cantada de forma mais chorosa de fundo são elementos que juntos funcionam de forma a gerar certa angústia. A repetição de “buried alive” mais isoladamente também contribui de maneira direta para a execução de tal efeito.

Murder – Eu disse separadora de oceanos antes porque ‘Murder’ e ‘A demon’s fate’ recobram bastante as características das primeiras faixas. ‘Murder’ por exemplo é uma música mais acelerada de traços sonoros agudos que dão exatamente a ideia de que alguém pretende matar e a voz mais grave da Sharon contribui bastante pra isso, pelo menos de início. O refrão muda um pouco sobre o tom de voz, o qual está bem normalizado. O final da música é fantástico também no trabalho com a guitarra. Destaque principal dessa faixa para a ideia brilhante de sons curtos que reproduzem o que parecem grupos de pessoas gritando logo após o primeiro refrão, o que combina bastante com a vibe da canção.

A demon’s fate – Já ‘A demon’s fate’ é uma música que ricocheteia entre o metal sinfônico e as tendências de discoteca usadas em ‘Sinéad’. É outra combinação forte nos moldes acelerados da atualidade que mantém o quê da própria banda, e diferente da ‘Sinéad’ essa faixa tem algo marcante entre 03:42 e 04:10 min. De forma geral eu acho que essa música sintetiza a maioria das tendências que eles procuraram usar ao longo do álbum intercalando o que havia de tradicional no som deles com o que eles apresentam de novo.

Stairway to the skies – Nem preciso dizer que o nome é uma homenagem ao Led Zeppelin, preciso? Como agradecimento à inspiração pelo rock dos anos 70-80 essa faixa é um tributo. É uma música bem lenta que abusa do fator antes citado: a música não te prepara para o refrão e ele distoa bastante da mesma, o que não a faz nem um pouco menos aproveitável do que as demais, muito pelo contrário. O gostoso dessa música é que ela não possui nada de comercial, ela é o que ela é e tem pra oferecer um grande impulso de recomeçar o álbum.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Fósforos na Chuva.

Às vezes eu penso que existe uma parte do ciclo que perpassa as pessoas na qual elas são como fósforos e estão na chuva. Eu não sei dizer exatamente qual seria o gatilho mais forte pra fazê-las pegar fogo novamente, mas sei que existem vários graus deles agindo sobre as mais variadas pessoas. Talvez - e só talvez - o mais forte seja de fato a própria pessoa.
O problema é que ela tem passado tanto tempo na chuva que já criou uma casca chamada conforto e ela nem lembra mais como era brilhar e se sentir aquecida. Ela olha na rua e vê outros fósforos de passagem, eles não a servem de exemplo porque sempre está chovendo e a diferença vive naqueles que ficaram na chuva e naqueles que só estão passando por ali. Mas como saber?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Já chegou um ponto na sua vida no qual você não sabe ao certo se é o cansaço de existir que te faz ficar constantemente pra baixo ou se são as coisas acontecendo e as pessoas ao seu redor que aumentam essa sensação, existente em quantidades diferentes a se mostrarem de formas assimétricas o tempo todo em todo mundo? Essa é provavelmente uma daquelas respostas que englobam os dois lados da pergunta, que como sempre estão interconectados a um nível que a olho nu e ligações nervosas limitadas não podemos entender ao certo.

Eu não sei se é só uma fase na qual a ordenação tem se provado tão antinatural, porém eu sei que a espécie de impulso que me levou até este pedaço de papel nada teve de planejada, e talvez seja melhor assim.

Provavelmente você está com medo – agora ou amanhã não importa. Dada a sua insignificância, qual seria o sentido de o impulso existencial ser movido a poder? Ou, talvez, que tal se ele fosse movido a temores? Pequena hipocrisia, a de criticar os “grandes” e, no entanto, querer roubar-lhes as posses.

Não é agradável. O fim. Eu vi tudo.

Aquela dança é feita de acordo com o movimento da lua. – Então, se não houver lua, não há dança? – Não é exatamente assim, se é feita de acordo com a lua só significa que você precisa manter um número de movimentos em código na sua cabeça. – Entendi! E quando eu começo a aprender? – Isso já começou faz milênios, todos têm praticado a mesma dança. Talvez você devesse procurar outro astro para simbolizar os seus atos.

Sem enganos eu sou a felicidade. Fui atada mais recentemente a um entremeio histórico complicado: por um lado o racionalismo me possui, por outro lado o romantismo não se perdeu. Isto significa que aqueles que me tem como meta na vida deles vão crer que o meio é o dinheiro – e que certas pessoas não importam, afinal, escolher o indivíduo é ser racional -, mas ao mesmo tempo, eles vão achar que os entes queridos nunca foram mais preciosos para a construção do próprio trono – nesse ponto que as coisas ficaram romantizadas. Dessa forma a pessoa vai lutar entre esses dois lados do jogo de prioridades e, eventualmente, vai descobrir

Ele morreu dizendo que as pessoas precisavam de um herói, não um estadista qualquer, mas um completo exemplo, algo diferente de tudo que já tivemos por aqui ou por quaisquer destas terras!

Você sofre por querer ordenar as coisas, por querer que os outros cheguem às mesmas conclusões que você, por querer que te entendam, por querer ser amado, por querer que te tenham como prioridade às vezes quando ninguém tem - nem você mesmo. Como querer que um sequer olhasse para o outro se ele foi treinado desde cedo a sobreviver cada vez mais sozinho? Querendo tudo isso? Ah!

Nunca entenderás o que há na cabeça alheia. Solidão e morte.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Happiness.

Fingir alegria - Todo ser julga e condena os demais, porém vive mergulhado no engendramento da hipocrisia de forma a fingir ser feliz para os outros enquanto quer de fato ser 'feliz' e olhar para os outros e enxergar ali a felicidade, esquecendo de lembrar que o outro só está jogando o mesmo jogo que ele. Qual a vantagem evolutiva da hipocrisia? Ou dos hábitos danosos? Seria uma de, a de, seria possível, auto-mutilação social?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Lack of Recognition.

Não sobraram sentimentos.
Os objetos já não lhe pertenciam.
E, caso pertencessem, não mais faziam a menor diferença.

A janela traduzia um reflexo do irreconhecível.
Este era a coisa mais linda no recinto -
não porque tivesse qualquer materialidade,
muito reversamente, concretude é o que menos havia ali.

Tudo que avistava lhe parecia fora do lugar.
A perspectiva havia mudado, não tinha vestígios
de quando ou quanto – nem poderia ter.

A ausência de aceitação criara o sentimento de vazio
mal direcionado. A impossibilidade de ver
que os sentimentos ainda estavam ali originara algo mais bonito.
A visão transparente do caos naquele ambiente criara a beleza

na forma mais pura.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Inquisitive Tale.

Você não pode saber sobre o que estou escrevendo. Porque ainda não leu sobre isso. E, talvez, mesmo que tivesse lido, ainda não entenderia direito a que ponto eu, autor, quis chegar com tal apontamento. Mas é lógico, não é? Eu e você não poderíamos entender exatamente a mesma coisa de uma determinada linha, senão qual seria o papel do leitor na minha amostra? Certamente que você deve ter um. Se por acaso não te interessares por este tipo nobre de trabalho, pare de ler imediatamente.

É bom que hajas desistido, uma vez que só escrevo para os curiosos e questionadores. Foi a curiosidade que te levou para frente? Para ver o que este tipo de autor pode guardar pra você? Bem, como eu já disse, eu nada guardo para você, eu jogo informações para que você possa assim chegar a suas próprias conclusões. E a curiosidade por si mesma é questionadora, portanto, você que prosseguiu até aqui pode continuar (se perguntando).

Roberto tem em suas mãos um brinquedo de infância. Ele não sabe ao certo o que fazer com ele: tal inanimação no aconchego de suas palmas cria um leque de lembranças, toma vida nas experiências que deixa e, com elas, um sentimento de perda muito grande caso aquele objeto se perca; ao mesmo tempo, ele sabe que em suas mãos o objeto não tem qualquer função.

E por função - é importante deixar claro com que intenção uso esta palavra, para que o leitor pense que me conhece um pouco melhor – me refiro a uma sociedade contraditória que valoriza a sensibilidade e que no seu prosseguimento automatiza os seres e prega valores racionais nos seus lugares, valores tais que desprezam justamente aquilo que ela pretendia valorizar em primeiro lugar: o humano. Falo da função de uma sociedade matematizada das aparências humanistas.

Camila é doente. Seus pais a levam ao médico desde que tinha cinco anos, mas não sabem explicar para os parentes o que ela tem exatamente. Nem ela consegue explicar o que tem, ela só sabe que não consegue acompanhar os outros na escola e que não faz as coisas chamadas “comuns” com a mesma frequência que as demais crianças. Ela pensa diariamente o quão infeliz é e como os acontecimentos não fazem sentido algum, sempre se perguntando o porquê de ter nascido como o fez.

Arthur e Matilde se casaram há dez anos. O casamento foi harmonioso nos primeiros três anos. No terceiro ano Arthur perdeu o emprego, sua filha tinha dois anos de idade na época e foi privada da grande maioria de bens com os quais poderia ter crescido com. Matilde tentou começar a trabalhar, mas não possuía qualquer qualificação exigida pela sociedade funcional, por isto é como se ela não pudesse fazer parte das engrenagens treinadas daquela enorme máquina. Arthur também demorou muito tempo para conseguir um novo emprego e, enquanto isso, Matilde lavava roupas para conhecidos por alguns trocados. Arthur tinha uma cabeça às antigas, ele não aceitava que a mulher estivesse sustentando a família. E assim Arthur e Matilde começaram uma vida separada na mesma casa.

Em que ponto será que todas essas personagens se tocam, você deve estar se perguntando? Oh, devo avisar que esta é uma história trágica, sobre pessoas infortunadas de destinos meramente entrelaçados que terminam eventualmente no mesmo trilho. Aqui não há felicidade. E essa é a sua última chance de parar de ler.

Hoje Roberto decidiu largar mão de se amarrar no passado. Hoje, também, Camila chegou à conclusão de que seria melhor por um fim em toda essa tortura existencial. Nesse mesmo dia, Arthur dormiu fora de casa. Havia brigado com a mulher, e também a traiu. Matilde se encontrava nervosa dada a hora da discussão e havia castigado a filha sem quaisquer motivos causados pela própria criatura.

Deixe-me apresentar-lhe o lugar fatídico de nossa história: a Praça Zenhi é um dos lugares mais famosos e, por isso, movimentados da cidade por conta de sua proximidade de certos pontos turísticos. Hoje é o dia no qual a Praça jamais será esquecida. Quando uma desgraça acontece, todas aquelas pessoas que criaram uma bolha social, lembram-se de que o mundo lá fora existe de alguma outra forma além daquela a qual estão condicionadas.

Roberto anda com uma mala em direção ao banco principal da cidade. O banco fica na Praça Zenhi. Camila está agora se despedindo de suas coisas e pegando o dinheiro que precisa para uma última encenação no palco do tempo. Arthur voltou pra casa, bateu na mulher por ter batido na filha. Na hora do almoço tudo já estava resolvido na casa e os dois resolvem dar um passeio no centro da cidade para fazer algumas compras.

São três horas e três minutos da tarde. O clima é chuvoso, como tem feito ultimamente. Ninguém espera pelo que pode acontecer. De repente o alarme do banco é disparado, algo aconteceu dentro ou em frente a ele. As pessoas se agitam para chegar ao local, o som do burburinho é ensurdecedor.

E agora?

Roberto aparece correndo, todo suado, sem a mochila nas costas, em meio à multidão. Ninguém se atenta à presença daquele ser, todos esperam saber apenas o que aconteceu, como se o evento já estivesse fechado no tempo. Saiba que, quando algo sai da rotina daquela gente, elas são capazes de se amontoar do jeito que for para ter um segundo de distração.

Há uma garota caída num canto da praça. Um senhor parece socorrê-la, mas aparentemente ela só foi deslocada pela multidão. Nesse mesmo momento, passa um casal com a filha, conversando um tanto alheio a todos os acontecimentos ao redor: eles tentam disfarçar em plena visão a céu aberto a desgraça que vivem como família.

São seis horas da tarde. A praça Zenhi se encontra em relativa paz nessa hora.

Texto inspirado em: Laurence Sterne e Émile Zola.