quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Moral & escolhas.

I - Valores morais são algo engraçado. Dentro do intelectualismo, ou da arrogância do conhecimento, aqueles que se julgam superiores por acharem que sabem demais invertem a premissa de todas as demais coordenadas que regem a sociedade. Simplifiquemos. Caso você compre algo novo – em nome do obsoleto – isso é “bom”. Se, por outro lado, mantiver itens ou pessoas por muitos anos idênticos em sua vida, isso é “ruim”. Mas se você for um intelectual consciente e concordante da frase “ignorância é uma benção”, você concorda que ignorância é “bom” e saber demais é “ruim” somente na frase, pois na prática a sede de “saber demais” e “mais do que os outros” continua drenando todas as tuas forças, então os valores se invertem e os ignorantes são vermes de esforço e concentração “ruins” e você é, no seu interior egoísta, “bom” – por que não, portanto, superior? Das mais variadas formas de convencer a si mesmo sem lutar – ser “bom” por natureza e ser “ruim” em detrimento de.

II - Não querer jogar fora o pensamento humano, mas jogando-o fora. Como pensar sobre coisas e chegar a conclusões do que ainda não se tem como saber? Digo ainda? Engano-me. Do que talvez não se possa saber? Anos de conhecimento presunçoso acerca de como tudo começou e qual a direção da vida. Sinto lhe dizer, você não sabe. Eu não sei. Ninguém sabe nem é possível saber. As teorias devem existir, claro. Mas como toda teoria ela existe como possibilidade. Do momento que esta adquire caráter doutrinário em diante perde a credibilidade. E como crer em algo sem enfétizar?

III - Ah, a incapacidade dos presunçosos de viverem sem respostas! E a lembrança que ecoa na mente de que a religião é só o máximo de fé possível, pois crer na ciência, na filosofia, em você mesmo ou no nada também requer o mesmo tipo de .

IV - O que é o lugar de cada um senão aquele no qual ruminou o suficiente para se sentar confortavelmente pelos próximos breves minutos de vida? Sem a reflexão, encontramo-nos sentados em sofás, cadeiras ou mesmo barcos que vão à deriva por um oceano sem vida, sem profundidade, sem cor e sem destino. O pensar permite que alguém possa escolher conscientemente onde sentar. Não há julgamento de valor na frase ou, ao menos, não deveria ter. “Pensar” não é melhor do que “não pensar”, mesmo porque entraríamos numa discussão do que é ou deixa de ser “pensar” e criaríamos anos de discussão filosófica ao redor desse tema que, no momento, não vem ao caso. A moral não vem ao caso – o que é concernente à vida é o que fazemos dela e, se alguém não sabe o que faz dela, não vive. Esse é o meu único problema existencial. Todos aqueles que “não sabem viver”, pois, pra mim, se há de ter alguma doutrina, que seja a doutrina da vida! E que agora surja então a questão moral!

V - Ninguém se interessa em mim. Eu sei. Mas que se interessem pelas propostas de minhas ideias e façam delas um ringue para os pensamentos. Que nenhuma ideia simplesmente grude no fundo de seu cérebro sem uma mínima reflexão a respeito. Briguem com as ideias e não com os donos delas.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Um brinde ao retorno do fluxo.

I - E decidi não me importar mais com as palavras de sangue. Pessoas são invólucros de organicidade e, portanto, a seriedade ou a estupidez de seus lapsos deveria ser encarada com um largo e expressivo sorriso no rosto. Sorriso que vem acompanhado não de escárnio, mas de paciência pela imensidão da instabilidade que enxergo. Quase sinto como se tivesse passado meses com a venda em meus olhos, de forma que cega pelos olhos pude interpretar as ações com outros sentidos.

II - É provável que a raiva como motor, conciliada com a razão e desbocando no rio da profunda tristeza tenha dado motivos para o julgamento desenfreado. Afinal de contas, a indignação deve acometer quem o observa, pensando: “como pode um ser aparentar tamanha força e se recuar diante dos obstáculos da vida?”. Ao que eu respondo: nem toda chuva é torrencial, mas toda chuva transforma a geografia da Terra.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Significados e desabafo

Talvez eu devesse falar mais vezes o que se passa aqui dentro. Eu faço muito pouco isso porque acredito que só com os pensamentos, música alta e algumas horas de sono tudo vá embora. Não vai. É um processo cumulativo de achar que você é insignificante até com o que você já foi importante antes. Não foi a situação que mudou, você mudou. Você mudou porque era muito mais fácil ver aquelas coisas quando elas eram raras e você não tinha se entregado para elas. Acontece que você muda quando você está entregue e o resto das pessoas não estão, e aquelas coisas já não são mais raras. Você as antecipa, você já sabe e já delimita as bordas de tudo antes de acontecer, eis que você se torna uma pessoa ansiosa. Talvez essa antecipação seja o tal "ser adulto" que alguns reagem fugindo antes de se decepcionar e outros preferem dar mais chances porque anteriormente podem ter se escondido demais. Qualquer que seja a sua situação, é uma cilada. No fim você é insignificante se ficar com uma pessoa só. Na nossa época as pessoas desistem e vão para outra. Só te jogam fora porque já sugaram mesmo o que você tinha de melhor. Você é sozinho, sempre foi e sempre será. Você se entrega para desacreditar. Com descrédito você quer acreditar de novo, não consegue, a ansiedade retorna. Ter pessoas diferentes na sua vida faz o que eu sempre temi: te revaloriza. Porque esperar que uma pessoa só vá te revalorizar ao longo do tempo é rir no vácuo: um som que ecoa e você se acostuma, mas não ocupa espaço algum. A esperança é mais ou menos isso. E pensar que eu fugi dela a vida inteira, quando me estabeleço para confiar, não existe aproximação que faça efeito. Se pudesse eu jogava fora todos aqueles que acham que pensar e ser como uma máquina é melhor, que a competitividade é melhor do que a cooperação. Tais pessoas sempre existiram de alguma forma, mas nunca foram a maioria. Agora que elas são a maioria, eu nasci e queria não ter tido esse privilégio.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Nietzsche: As reverberações de uma sequência de eventos em um ser histórico



'Deve-se perguntar, portanto, o que se passava em território alemão e, mais extensamente, na Europa no geral enquanto o filósofo vivia. Quando ele nasceu não havia uma Alemanha, somente províncias da Áustria e Prússia. Em 1871 Nietzsche viu a unificação do território ser estruturada e solidificada tendo como chefe de Estado o chanceler Otto von Bismarck. Esse é um dos acontecimentos desse ano que marcaram o filósofo, o e outro se dava na França: a Comuna de Paris.

A Guerra Franco-Prussiana, guerra de 1870-1871, estabelece uma clivagem nas relações da Alemanha e França, afinal essas duas potências já vinham travando batalhas desde as Guerras Napoleônicas. Tal guerra envolvia interesses de equilíbrios de poder entre França e o então Império Prussiano, que terminaram por concluir com a vitória alemã e o ímpeto da unificação gerido por Bismarck.

Bismarck primeiramente era hostil à unificação e, portanto, os alemães não lhe adoravam. O plano inicial do chanceler era o de excluir a Áustria de seu território e, para isso, foram necessárias, em média, três guerras. No entanto, embora o interesse fosse o de tirar a Áustria de campo e não fomentar necessariamente o espírito de junção do território alemão, Bismarck se aproveitou de uma oportunidade de enfraquecimento do exército francês e tomou a Alsácia e a Lorena, territórios franceses; esta medida acabou por cimentar decisivamente o desejo dos alemães de se unificarem .

A Comuna de Paris, apesar de ocorrer na França, em 1871, tem impacto sobre Nietzsche. O acontecimento se refere à tomada de poder pelos operários durante três meses e, apesar de ter falhado sua permanência no domínio, a Comuna conquistou muitas reformas no meio trabalhista como: fim do trabalho noturno, descontos em salários foram abolidos, os sindicatos foram legalizados, o cargo de juiz se tornou eletivo, institui-se a igualdade entre sexos, entre outras. Para Nietzsche, o povo não deveria subir no poder, somente os homens devidamente estudados deveriam exercer tal obrigação. Além do mais, para o filósofo, o povo jamais deveria ter consciência de como é oprimido, do contrário, tomaria conta de toda a sociedade e iria distorcê-la. Nietzsche nunca explica exatamente esses sentimentos, talvez aponte que as pessoas sem condições de bons estudos não nutrem “virtudes”, mas isso não explica muita coisa. De qualquer forma, o que ele deixou claro é que a destruição de museus, causada pelos operários em Paris, realmente o deixou com impressões negativas sobre o operariado e o povo, no geral, daquele momento em diante, o que mostra que o acontecimento histórico o influenciou de alguma maneira em sua posição.

Assim, após esse apanhado biográfico em Nietzsche e bem geral em território alemão e suas delimitações, é possível estabelecer melhor o que chegava ao filósofo além dos “problemas” internos, ou seja, as turbulências mais características da segunda metade do século XIX e como estes fatos afetaram Nietzsche, o que prova sempre que ele era um homem de seu tempo'.

Trecho de conclusão de curso acadêmico, 2012.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Review 6


Epica – Requiem for the Indifferent

“Prece pelos mortos.
Música cantada durante os velórios ou simplesmente para homenagear os mortos”, fonte.

Observação: Réquiem está explicado acima e “for the indifferent”, aqui, indiferente, são todos aqueles que não pensam serem importantes questões sociais e ambientais do mundo, principalmente ambientais e, para qual direção o materialismo desenfreado – que não calcula o efeito de exploração do meio ambiente – pode ter para os seres humanos. O legal é que a capa e o título já deixam bem claro que tipo de crítica, também à maquinação, nós vamos encontrar nas letras do álbum.

Karma: é a faixa que anuncia. Anuncia porque a forma que a bateria é usada não é sem intenção, pois não tem como não se sentir ansioso para o que vem a seguir. Também penso que o coro é interessante, ele quebra o ritmo e ajuda a alimentar o imaginário.

Monopoly on truth: Epica é uma banda complicada de ser analisada em simples Reviews porque 1) há o que dá pra entender; 2) o que não dá pra ter ideia do que estão falando; 3) os prenúncios dos álbuns futuros – lembrando que todos eles falam de algum tema crítico; 4) ou mesmo complementos de letras do passado. Além disso, também há de ser analisado a) a estrutura musical é complexa, todo segundo tem uma proposta diferente; e b) as letras (todas) tem uma profundidade sem igual. Dito isso podemos passar para a primeira faixa de ‘Requiem for the Indifferent’. A começar pela conexão com ‘Karma’, ‘Monopoly on truth’ começa com tudo. O uso de latim é muito frequente e dá a ideia “épica” que o nome da banda sempre tenta passar. Depois do trabalho inicial a Simone e o Mark tem uma participação rápida, seguida do retorno dos coros. A música segue nessa variação de turnos, com muitas mudanças técnicas que são quase impossíveis de serem comentadas aqui, até o refrão em 3:26min. Eu tenho que dizer que acho esse refrão um dos mais lindos e intensos que eu já ouvi – ou que existem. Logo em 3:48min há uma pausa estrutural e o enfoque na voz da Simone totalmente inesperados. O legal dessa banda é exatamente isso, no começo você não podia esperar tanta variação e momentos bonitos ao longo da canção. A música retorna ao Mark-Simone-coro variação, mas, preste atenção, é diferente da inicial! Em 6:04min há o refrão solo que a Simone faz, seguido de guitarra e finalizado com o coro total. Vale lembrar que a importância de Epica é diferente de outras bandas e vale um pedaço aqui das letras mais fortes e impactantes, uma vez que elas não podem ser deixadas de lado em uma análise. Para ‘Monopoly on truth’ vai o refrão:

“Can we trust all the facts and believe that the fancied wise are just and needed?
Do we want to rely on the views of the righteous ones who are succeeding?
If you look all around and you see all the things that are not meant to be
then you know it's time to let them go”.


Storm the sorrow: esse foi o primeiro single do álbum. Normalmente os singles são mais pop, mas não no caso de Epica. Ou então os singles são curtos e românticos. Também não é o caso dessa banda. ‘Storm the sorrow’ é uma música sobre quem você é, sobre questionamentos de superação e depressão, além de ter mais de 5min e um videoclipe fenomenal. Em linhas gerais, é a Simone e leves coros que fazem o trabalho, só em 3:30min que o Mark dá uma forcinha. Aqui a estratégia é similar à de ‘Monopoly on truth’, após o gutural, primeiro o refrão com a Simone acompanhada de piano, ou seja, um refrão mais solo; seguido pelo refrão completo.

Delirium: tenso mesmo é falar de ballad que, em outras palavras, são as músicas mais lentas de um álbum. No caso de ‘Requiem for the indifferent’, ‘Delirium’ é a ÚNICA ballad do álbum. O que isso significa? Significa que eles sabiam que tinham que caprichar em níveis astronômicos, já que esse vai ser o único stop, o único relax, do álbum. E foi isso que eles fizeram. O começo é de um coro harmonioso, seguido de piano e Simone. A parte cantada é repetida algumas vezes, mas cada vez que é repetida é somente na melodia, pois a letra muda e, ainda que repetida na melodia, há mudanças. Em 2:25min o refrão é representado e, pra variar, a voz da Simone faz todo o trabalho: vai até você, arranca seu coração e deixa ele em algum lugar abandonado até você resolver acordar e se tocar do que foi que você acabou de ouvir. Até 3:39min o fundo musical acompanhava a vocalista, em 3:39min o fundo torna a música mais intensa e maior. Em 4:15min a faixa fica um pouquinho mais sombria, ampliada por um solo de guitarra e, enfim, retornando ao normal. ‘Delirium’ encerra com a Simone repetindo as frases principais de forma mais pausada.

Internal Warfare – agora o álbum volta ao ‘normal’, um tom mais pesado que vai carregar até sua última faixa. O assunto também começa a ficar mais sério e o foco da letra são questionamentos sobre coragem, convicções e conservadorismo. Depois do som introdutório, a Simone abre a música com as perguntas:

“Would anybody dare to know the answer?
Would anybody dare to face the truth?
We bide the time awaiting our answers to our kind”.


De cara eles deixam claro que estamos num processo apocalíptico e precisamos acordar. Para isso, devemos fazer mais perguntas e medir as consequências do consumismo e capitalismo atuais. A música segue com a Simone e o coro e tem uma mudança em 2:53min, onde o Mark tem rápida participação, o coro intercala e em 4:22min, depois do solo de guitarra, a música retorna ao refrão e encerra com o coro num tom mais agudo.

Requiem for the indifferent: no meu modo de ver, essa faixa é uma obra totalmente experimental de Epica que deu muito, mas muito certo. Eles usam muito sons considerados para nós como sons orientais e é com esses sons que essa faixa começa, mas veja bem, a quantidade de mudanças desses oito minutos e pouco mostra que eles foram razoavelmente planejados e, aparentemente, os buracos foram sendo preenchidos conforme a produção e ficou excelente. Exemplos de mudança? 0:01min até 1:23min; 1:23min até 2:17min; 2:17min até 2:44min; 2:44min até 3:20min; 3:20min até 3:46min; 3:46min até 4:36min; 4:36min até 5:19min; 5:19min até 5:50min; 5:50min até 6:53min; 6:53min até 7:17min; 7:17min até 8:02min; 8:02min até 8:33min. São cerca de 12 mudanças no som em oito minutos. E eu tô falando sério! Eu não sei qual a linha do possível harmônico pra fazer tanta mudança soar tão correta o tempo inteiro, só sei que o conjunto fez muito, MUITO, sentido. É uma música pra se abrir no player, quem tem, ou no Youtube, quem ainda não tem, e realmente acompanhar. Vale prestar atenção na crítica do refrão:

“With money segregating
the centers are degrading
the devastation
we feared we’d befall
but soon we’ll realize that
we can get reunited
this could apply to us all, after all
we’ll never find our peace of mind
if we don’t leave the past behind
make up your mind”.


Anima: essa é uma faixa de intervalo, simboliza o meio do álbum e dá uma pequena relaxada no ouvinte e também procura prepará-lo para a segunda parte. É uma faixa de piano com 1:25min de duração que simboliza uma faixa futura.

Guilty demeanor: é a menor canção do álbum. Fala um pouquinho do que cada um enfrenta e pensa e que, quando pensa algo fora das histórias-padrão, tem que ter mais força ainda para enfrentar a quantidade de oposições, pois se descobre sozinho. ‘Guilty demeanor’ começa com algum peso e intervalos sonoros, avança com a Simone, dando espaços periódicos para o Mark ou para o coro participar. É uma das minhas melodias favoritas de ‘Requiem for the indifferent’.

Deep water horizon: essa música começa com instrumentos mais lentos, de forma a dar a ideia de mais uma ballad, mas ela não é. Simone inicia e canta até 0:53min, momento no qual a música começa a ganhar mais profundidade técnica com a entrada da bateria. E em 1:34min o refrão é apresentado pela primeira vez. A canção segue o mesmo estilo até 3:17min, é aí que alcança o estopim de ‘Deep water horizon’ com um belíssimo trabalho instrumental e rápidas interferências do Mark e, no final, da Simone. Esta dá o tom de retorno ao refrão e encerra a música de forma diferenciada ao cantar frases prolongadas.

Stay the course: ‘Stay the course’ e a próxima faixa, ‘Deter the tyrant’, são faixas bem parecidas em minha opinião. As duas são pesadinhas e tem uma participação mais ativa do Mark. ‘Stay the course’ mesmo é o Mark quem canta e a Simone tem ou participações rápidas ou canta somente o refrão. O legal dessa faixa é o trabalho de fundo também e o tema: manter o curso. A quantidade de valores antigos que possuímos e mantemos sem nos questionar se eles ainda se aplicam às mudanças ocorrendo no presente e, além disso, o medo que algumas pessoas têm de mudar, escondendo-se, portanto, atrás das frases conformistas de “não vai adiantar” ou “as coisas sempre foram assim”.

Deter the tyrant: essa música começa de forma intensa e a Simone é quem começa, intercalada pelo coro. O primeiro refrão é seguido pela guitarra, que dá a ideia de que ainda há muito pela frente. A fórmula se repete até o refrão que, dessa vez, tem mais algumas linhas e quando termina, em 3:10min, a Simone e o coro mostram um pedaço novo possível com as notas até então utilizadas. O Mark faz seu gutural por alguns segundos e, em 3:38min, a Simone retorna por mais alguns segundos, os dois levam à 3:54min, momento no qual o coronel Gaddafi, libanês, se expressa, pois a banda sempre coleta frases de representantes estatais do presente e do passado pra fundamentar suas críticas. Depois disso, a Simone “brinca” um pouco com a voz e em 4:33min o discurso fica mais sério com Mark. A vocalista tem mais uma rápida participação, Mark retorna ainda de forma mais intensa, o auge de ‘Deter the tyrant’ começa e lidera os sons ao retorno do refrão, quando a música termina.

Avalanche: agora eu conto o meu segredo para vocês: as duas últimas faixas do álbum, ou seja, essa e a próxima são, de longe, as minhas favoritas de ‘Requiem for the indifferent’, então vamos sentar, aumentar o som e ouvi-las com muita calma. ‘Avalanche’ inicia de forma que me lembra do infinito, do universo, do místico e coisas desse tipo. É uma faixa que vai crescendo até alcançar a completude, vamos ver como isso ocorre. De 0:01min até 1:14min a música segue o tom místico; já em 1:14min o forma começa a ser delineada e, em 1:43min, com a bateria, ‘Avalanche’ já assume o esqueleto. Depois da participação do Mark, que eu considero o sangue fluindo, o coração retorna a bater. A música fica ritmada com alma. De 3:27min até 4:27min é como se o conjunto todo brincasse com o ouvinte e é impossível não segurar na mão desse som tão orgânico. O Mark canta mais um pouco e em 5:31min a Simone apresenta o que, em 5:50min, vai fazer você e seu mais novo parceiro orgânico explodirem em estrelas.

Serenade of self-destruction: mas não acabou. ‘Serenade of self-destruction’ é a última faixa oficial do álbum e, lembram de ‘Anima’? Pois é. Ela continua em ‘Serenade’ e, eu devo dizer, que essa é uma das músicas mais bonitas e bem trabalhadas do meu conhecimento. Depois da introdução que prolonga ‘Anima’, a música realmente define a ‘alma’ – que é anima em latim -, e o primeiro coro em latim aparece, seguido pelo Mark. Isso se repete e em 2:48min a Simone entra com o tom de voz totalmente participativo. Ela e o Mark estão ‘se desafiando’, por assim dizer, ao que ele diz que ela não vai conseguir cumprir com sua missão e o refrão dela é: “Try me, don't deny me”, querendo dizer que não a teste porque ela acredita que vai conseguir, maaas, o resto do refrão deixa bem claro, que, pra ela, é uma missão suicida. Até aqui foram miraculosos 4:50min, o que parecia até então um mero piscar de olhos pra quem ouve. Um longo solo Simone com direito aos sons orientais que eu comentei antes vem a seguir. A letra desse momento é:

“I’d rather die
than breathe in my shame
they’ll know my name
all hell in flames”.


Após a Simone, o coro retorna e tem uma longa participação que a Simone encerra ao voltar e, em 7:45min, o instrumental faz um passeio e explora seus potenciais. Claro que essa produção toda só poderia terminar de uma única forma, que é o encaixe perfeito no último refrão eternalizante.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Utopia. não.

"Utopia tem como significado mais comum a ideia de civilização ideal, imaginária, fantástica. Pode referir-se a uma cidade ou a um mundo, sendo possível tanto no futuro, quanto no presente, porém em um paralelo. Pode também ser utilizado para definir um sonho ainda não realizado. Uma fantasia, uma esperança muito forte", fonte.

"Vem a ser o que se imagina como sendo perfeito, ideal, porém imaginário não se sabe ao certo se é possível alcançar ou realizar, é almejado mas apenas utópico", fonte.

A utopia é normalmente relacionada com algum aspecto que almejamos que seja perfeito, rodeado por uma forte esperança e alimentado com profunda (sintoma ou resultado de) irrealização, pois demonstra-se impossível. Mas será? Pra mim, utópico é um mundo cem por cento igualitário, é um mundo onde a moral fique desligada pra não podermos julgar se algo é justo ou injusto, mesmo tudo aquilo que independe de nós. Eu não acredito em algo que seja cem por cento efetivo ou igualitário, porque temos julgamento moral e, a menos que aconteça um acidente bem grande comigo ou com você, essa parte do cérebro vai continuar funcionando e catalogando tudo que é possível perceber - cataloga até, inclusive, a forma de perceber. Acontece que eu não concordo que se não podemos conseguir o ideal, temos também que nos conformar com tudo que acontece do jeitinho que acontece. A questão feminista é vista dessa forma por mim. Não é como se eu não aceitasse que as coisas são do jeito que são e quisesse mudar tudo. Mesmo porque eu estudei história e vi, ao longo dos séculos, como as ideias mudam com uma perspectiva diferente ou educação diferenciada. Também não é toda a estrutura que eu espero que mude, o que eu espero que mude é o respeito. Eu quero ser respeitada. Eu quero andar na rua em paz, assim como a grande maioria dos homens podem fazer. E isso não é briga de 'quero o que eles tem', é briga de quem cansou de ser percebida o tempo todo pela forma como nasceu e só gostaria de ser deixada um pouco mais de lado. Gostaria, mesmo, que a seleção fosse mais rigorosa e não que qualquer mulher fosse assediada aonde quer que vá. Não acredito que querer conquistar essa paz seja utópico, porque não é impossível (existe em outros lugares) nem doloroso. Não é um sacrifício da humanidade pra nada muito maior do que o imaginável, do que o palpável.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Presunção.

Qual é o tamanho da sua presunção? Talvez, esta, seja proporcional à profundidade de ilusão na qual cada um vive. Imaginemos duas correntes: 1) de tudo aquilo que é imaginativo, no sentido mitológico – dentro de um conjunto de crenças falsas do passado ou presente que fazem sentido por estarem interligadas estruturalmente em uma sociedade/cultura/tempo; e 2) e o todo que segue em fluxo, de forma a cair na inércia do pensamento. Assim, caso se refugie em fugas ou raiva de forma irrefletida, está agindo sem pensar e, se por um acaso, estiver consciente e continuar a se esconder, isto pode ser chamado de covardia. E o covarde não pensa de forma ilusória, não se convence de que não precisa participar da vida e de quaisquer escolhas?

É presunçoso todo aquele que acredita em uma única verdade sobre o mundo e os acontecimentos, utilizando como parâmetro somente o próprio ser humano, de forma a partir somente de si e para si, e não calcular consequência, pensar nas próprias ações, entender e compreender.

É presunçoso dizer que sabemos para onde tudo vai e de onde tudo veio, já que mais da metade das pessoas não se conscientiza dos próprios corpos e menos ainda da própria mente, quanto mais de questões complexas que englobam além da sua e da minha percepção limitadas, ainda que combinadas.
É apocalipticamente presunçoso, então, dizer que se entende sobre a vida baseado somente em dados cumulativos: como se a quantidade de anos que se “viveu” e não sequer pensar a respeito da significação de experiências físicas e teóricas e suas respectivas forças.

Presunçosa é a ignorância histórica, acreditar que de fato se está “solto” no tempo, como se nada que viesse antes importasse na construção do presente. E é a mesma ignorância que, mesmo depois da humanidade ter se equivocado sobre a interpretação evolutiva, durante os séculos XIX e XX, nos faz continuarmos acreditando em hierarquias “naturais” de superior e inferior e alimentarmos a exclusão social. Se pensássemos mesmo nisso entenderíamos que cada animal desenvolve o que é necessário para sua sobrevivência, seja isso o que for, e que se não for rápido o suficiente ou se o ambiente mudar, eles podem entrar em extinção. Portanto, o ornitorrinco desenvolveu algo um tanto quanto improvável: eletricidade. Tal animal necessita de algo que chamaríamos de “tecnologia” para sentir as presas e poder caçá-las. Uma aquisição adaptativa e tanto. Nós, por outro lado, precisamos de “inteligência”: interpretação, comunicação e acumulação de informações em longo prazo. Teríamos sumido caso nossos cérebros não se adaptassem às necessidades, pois somos muito frágeis e dependentes: morreríamos com o frio ou mesmo desidratados com facilidade. Somos, de fato, uma espécie peculiar e interessante. Mas não somos o topo da evolução conjugado pelo sentido progressista e hierárquico. Somos, apenas, resultado de uma – longa – adaptação diferente da dos ornitorrincos, e de tantos outros animais fascinantes.


É presunçoso, também, acreditar que o universo gira ao nosso redor, que a Terra é decisiva e imprescindível para o desenvolvimento do resto. O universo e a Terra existiam muito antes de seres humanos aparecerem, e muito depois de perecermos eles continuarão aí. Nem as estrelas, nem os outros planetas, nem os deuses, nem a natureza, nem o que for realmente se importam.

Acredito, enfim, que ambas as linhas do que chamei como ilusão, como citado acima, cruzam-se no infinito e apontam para isto: que ao se autoenganar, viver de inércia, criamos uma mitologia – uma falsa crença – digna de educação, pois somente esta pode superar tal barreira adaptativa: quem sabe nos tornando menos presunçosos podemos ser menos dependentes teoricamente.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Sacolas.

É inevitável não pensar que as coisas voltam ao mesmo ponto, à aquela espiral; o mesmo sentimento renovado apenas pelo motivo que o desencadeou. Você segue a rotina e encontra as mesmices, mentais ou não, elas estão ali. Então você resolve mudá-la um pouco e aquela agitação logo se esvai, tudo não passa de uma enganação. E o pior tipo delas, o tipo que é você mentindo pra si mesmo consciente da falácia.

São só essas sacolas que você já nasce e tem que carregar, sabe? Se você é cristão tem de seguir uma determinada moral, se você se descobre ateu você acha que nada mais tem sentido e vive num niilismo estúpido, esculpido por uma ciência comprada e um intelectualismo com data de validade. Mas em cada grupinho que você se encaixou, você nem tenta ver suas delimitações e cai de cabeça.

Tudo isso me deixa bem triste. Penso que as palavras só existem nelas mesmas e que as pessoas se prenderem a elas a ponto de se definirem com elas todo o tempo como se fossem morrer amanhã de inanição é, no mínimo, muito solitário. Ser isso ou ser aquilo como se a abstração fosse verdadeira, acreditar sem poder ver ou sentir ao mesmo tempo em que você pode explicar, é vazio.

Precisamos acreditar em algo? Minha escassa experiência de vida diz que sim, mas também diz que por tempo limitado. Que você tem o potencial para mudar de escamas e não pode vê-lo porque acha que as sacolas que te deram são as únicas possíveis. E mesmo assim mudamos, só mudamos o superficial e nos agarramos à convicções que existem somente dentro de nós. Vivemos e morremos sem experimentar nada mais verdadeiro do que isso.

E é esse sentimento de cognição que sempre retorna, pelo menos aqui, e me deixa absolutamente cansada de tudo que segue nessa mesma direção. Cada dia mais eu penso que as coisas que aqui me fixam têm de valer a pena, porque senão, não tem porque continuar com a mesma embalagem.

sábado, 11 de maio de 2013

Correlação.

É engraçado que, dentro desses meus poucos anos de vida, eu consiga achar o corpo feminino muito belo, escultural e sexy, mas não o masculino. Na verdade, para ver alguma dessas características em um homem eu preciso forçar bastante ou, então, os traços do rosto devem parecer com os traços femininos, daquilo que é considerado "bonito" no rosto de uma mulher. Bom, vocês sabem o que significa a palavra sexy? Uma pessoa que pode ser atraente ou excitante aos olhares. Então, espera! Eu, mulher, consigo reconhecer isso com relação a outra mulher e não com um homem?! É. E por que será, não é mesmo? Não é porque a mulher é "naturalmente mais bela" ou porque "homens tem mais pelos e são mais barrigudos!". Esses são argumentos rasos e fora de qualquer consciência de construção social. Vivemos o ápice da "objetização" da mulher através de sua imagem. Este fator ligado a alguns outros, tem transformado cada vez mais isso:


Nisso:


Uma coisa, na minha humilde opinião, é termos atração sexual por um ou por outro sexo. Outra coisa bem diferente, é pegarmos um só e levarmos ao máximo de sexualização possível e chamarmos isso de saudável. Eu não vim falar de feminismo hoje, embora seja importante lembrar que qualquer luta por uma situação melhor pra nós, mulheres, nunca matou ninguém. E o machismo mata, diariamente. Sempre que a ideia de posse masculina é ameaçada, o esquema todo se torna um risco enorme pra mulher. Sem falar de estupros. Eu vim falar mesmo de algo que correlacionei com essa exposição constante da mulher. O que vocês sentem quando veem isso:


?

Esse é o Fauno de Barberini. Para quem ainda não sabia, em determinado momento na Grécia, o homem era mais intensamente relacionado ao prazer sexual do que a mulher. A mulher servia como aquela que reproduz. E o prazer sexual era reservado para os ritos de passagem e para o prazer também. Portanto, você encontraria muitas imagens nuas dos homens na Grécia, e não das mulheres. Obviamente que o nu da época, o nu masculino, não tem SÓ essa intenção. Mas fica fácil compreender porque alguma inclinação para isso haveria de ter. No entanto, não lhe falta algo? Não faltou algo ao Sátiro nu? Sim. Ele não é inferior. Ele não serve e vai embora. Não é usado, nem é refeição. Os gregos, no geral,cultuavam essas imagens, elas lhe representavam algo elevado. E as mulheres, o que elas representam para nós mesmo?

sábado, 27 de abril de 2013

Sobre o orgânico.

Eu não vou te dizer hoje o que pensar, como se o prenúncio através de palavras fosse seguido de solidez. O que parece ser captado hoje pelo que chamamos de "consciência", em seguida aparecerá para nós, para a mesma mente, de forma diferente. E de infinitas diferentes maneiras ao longo do tempo.

A única criatura que acabou acreditando poder dar forma ao que não tem - e entender o que não é completamente possível - somos nós. Assim como as únicas criaturas que enfim entendem, e com enorme pesar, a consequência de ser orgânico. Mutável. Não enxergamos, nem pensamos de forma clara ou palpável as clamadas "certezas", mas sabemos, sentimos, angustiamos esta presença, a organicidade.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Às vezes me fascinava a repetição das coisas e às vezes me tomava de medo com elas. Ficava boquiaberto com a quantidade de vícios e falhas que nós, humanos, carregamos e como somos levados, por nós mesmos ou por outros, a agir da mesma forma, mesmo que ruim. Lembrava-me de imaginar quais motivos levariam uma pessoa a ter mais de um filho, ou viajar em frequência tão baixa. Não faz sentido.
Em meio às divagações, algo me arrebatou na cabeça: um avião de papel. Eu me encontro nesse momento em escritório, embora seja um investigador criminal: os casos da cidade me pertencem, mas eu não sei se pertenço a eles. Sou um pessimista.
- Hey! O que é isso? – perguntei rapidamente.
- É só um avião de papel! – disse X, rindo.
- E quantos anos você tem? – comecei a ficar mais sério.
X deu mais um rápido sorriso e uma piscadela. É admirável como ele aparenta facilidade em lidar com tudo, e se demonstra animado, quase sem ligar para o que ocorre. É por isso, penso eu, que eu sou o seu chefe. Nós dois somos solteiros, o que sempre me explicou o fato de que eu ser pessimista não é o motivo de meus relacionamentos não durarem; já que X é otimista, e considerado bonito pelas mulheres que trabalham por aqui.
O que acontece com X é que ele aparenta algo que não pensa realmente e isso se traduz em todas as suas atitudes, ou talvez ele só seja gay e tenha muita vergonha de ser oprimido socialmente por causa disso.
Eu sei que o meu excesso de pensamento tem atrapalhado meu trabalho, uma porque eu assumo mais ideias do que o caso possui; outra que se eu não estou pensando demais no caso, estou pensando muito em outra coisa. Preciso reaprender a me concentrar, como fazia nos velhos tempos quando alcancei meu posto e status de trabalho.
Claro que meu posto não é tudo. Quem dera ele fosse. Muitos novatos querem receber meus casos, eles são mais intrigantes e complicados, por isso eu posso levar meses para solucionar um único caso e as cobranças não são tão ferozes. Já no caso dos novatos, a vida se dá através da febre pelos números. O que conta é a produtividade dos casos e nem sempre há tempo de acertarem com grande precisão.
- Y, tem um caso grande encomendado para você, que tal? – disse meu colega, entregando-me o relatório.
Respirei fundo e dei aquela olhada superficial nos papéis – não me agradava mais nada: assassinatos, raptos, corrupção, casos animalescos, drogas, nada -, foi quando eu li:

Nome criminal: Dart
Crime: assalto organizado
Relato de procedimento: o criminoso usa uma bola que pula, do tamanho de uma bola de ping pong, como distração. Em seguida sempre age de formas diferentes, mas cumpre seu objetivo. Já houve situações nas quais não retirou dinheiro. Normalmente age sozinho, porém houve casos em que outras pessoas compareceram com ele no local do crime. As testemunhas relataram se encontrarem perdidas enquanto Dart resolvia agir. Jamais foram as mesmas pessoas, nem os mesmos lugares.


Confesso que fiquei embasbacado e, na surpresa do momento, consegui perceber uma mosca em meu café. Acontece que eu não estava mais ali, eu estivera ali um segundo antes, mas agora o meu juízo, que sempre se julgou muito sábio, queria ter sua atenção de volta, e dele só se tira passado e medo:
- Uma bola? Esse é o tipo de caso sério que temos de resolver hoje em dia? Você deve estar achando que eu sou um palhaço! – não falei, praticamente cuspi em uma única rajada de fogo que nem vi de onde veio, porém os rastros deixaram reflexos vivos nos olhos de todos ao meu redor. Os olhos me julgaram e disseram que eram melhores do que eu, que nunca se rebaixariam ao meu nível e era só isso que eu queria ver, era tão mais fácil pensar que todos estavam contra mim! Enquanto, na realidade, eles me olhavam sem saber o que pensar. Não aguentei mais, peguei o relatório e levantei abruptamente, dizendo:
- Vou levar! Preciso pensar, mas deixo claro que não é o que eu quero, fiquem sabendo.
Se meu colega soubesse o que dizer, talvez fosse algo como “Você precisa de férias” ou “Por que eu estou nesse cargo aqui e você está nesse cargo aí?”. Meu ódio inflava só de pensar que ele podia estar sentindo pena de mim.
Meu mundo ficou imediatamente sem cores ou, ao menos, eu não conseguia enxergá-las. O caso era ruim e as pessoas nunca entenderiam! Nunca! Logo ao sair do prédio o sol invadiu meu mundo descolorido e o calor ora me aquecia, ora me incomodava, não havia lhe permitido tamanha intimidade.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Procurando pelo novo.

Só vira o charlatão
que era, senão, um fofoqueiro
sem entremeio procurou exterminar,
e logo se orgulhar, do conquistado
foi deixado, portanto, sem dignidade
e piedade, perto do rebosteio.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Ao fim da(s) reta(s).

Não sabia se sorria ou se sofria. Vivia debatendo-se entre paredes em um eterno labirinto dentro de sua mente, o mais sufocante que há de haver. Já havia passado pelas janelas da eternidade, pelas promessas de um futuro brilhante, da crença e do amor. Já havia transitado na dualidade, no claro e no escuro, no sol e na lua, no forte e no fraco. Pareciam não restar muitas opções, mergulhou então na total descrença. Afinal, não há esperança eterna! Nem dualidades no mundo! Nossa cabeça faz tudo, tudo! - Repetia incontáveis vezes. Mas onde caíra? No abismo. Não havia se translocado geograficamente, não. Mas dentro de seus pensamentos o labirinto passara a ser dor. Só dor. Pensava em punições constantes porque não conseguia mais alcançar satisfações significativas. Parecia um redemoinho e, a qualquer tentativa de sair, afogava-se novamente. Eis que mudanças ocorreram em sua rotina e um pingo do otimismo ocidental adentrou seu chapéu. Será que o próximo estágio seria de concluir que não há nada mais que se fazer mesmo? Procuraria válvulas de escape diárias como álcool, drogas, sexo, viagens, loucuras; ou se entregaria ao não-saber, ao estatelar fora da atmosfera, sem oxigênio, deixando-se morrer? Sorria lentamente com essas perguntas de duas mãos. Por que? Por que transformava o mundo em algo tão simplório? Sabia que não era assim, que jamais poderia ser! Porém, o que poderia fazer se o ser humano pode ser tão frágil que precisa construir barreiras de conforto nas dores mais azedas e profundas de sua fugaz existência? Pensava em nada enfim, resmungava algo e recitava algumas palavras ao som do ponto mais alto do dia:

Nada e tudo;
não criaram ainda uma palavra que descreva
os oceanos que entremeiam essas duas distâncias
menos ainda, por sim
pensaram naquelas que poderiam extinguir os dois fins da reta
porque reta não há
direção nunca houve
e solução, talvez, há de ser uma bem infeliz para
nós.

Sofria mais do que sempre sofreu e soltava a única lembrança de alguém importante de suas mãos naquele mesmo vento. O som do objeto caindo na areia eternizou aqueles segundos, quase como se passassem em câmera lenta, o sangue e as lágrimas foram se reunir à mágoa derramada.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Em meio às tantas direções...

Eu vivo o meu tempo, e estou em contradição com ele. É bem verdade que este texto é só uma mera confissão de muita abrangência - senão toda - pessoal, talvez ele vá guiar mais alguém pelos mesmos meandros que o meu pensamento seguiu, ou talvez não, não importa. O mundo quando eu era criança se resumia numa única função e desejo, pelo menos até os meus seis/sete anos de idade: ser arqueóloga. É claro que as intempéries já da vida adolescente foram ampliando esses horizontes e mesmo antes eu ligava à ideia de profissão também aquela de aventura propriamente dita. Naquela fase da decisão praticamente 'obrigatória' de um futuro a ser percorrido, eu me encontrei em dúvida entre filosofia e biologia. Filosofia porque sempre achei um descaso e falta de interesse na formação dos seres a exclusão dessa disciplina. E biologia porque eu naturalmente me interessava pelo funcionamento do mundo ao meu redor. Ambas explicações de forma bem sucinta. Enfim, eu escolhi por fazer história antes de toda e qualquer coisa e não me arrependo disso. Mas o que me leva a escrever hoje são as barreiras que vejo em meus - ainda tantos - desejos restantes: eu quero levar aquela vida de aventureira nem que seja por alguns meses, nem que eu negue o lado nômade da coisa ou mesmo arqueológico, só por realizar essa vontade mesmo. Eu quero com isso poder repensar tantas cristalizações culturais que eu tenho com um conhecimento tão ínfimo e recluso a uma porcentagem minúscula desse território brasileiro. Ampliar horizontes, ir além das leituras, além do conhecimento que, por mais que não seja estático, deixa de trazer vida e experiência às afirmações dadas. Eu quero poder cantar, mesmo que seja para um público pequenino e, com o canto, retomar minhas aulas de teoria musical para poder também retornar às aulas de violino que tanto me fizeram bem. Eu quero poder escrever livremente, sem restrições de pensamento por conta de 'áreas do conhecimento'. Eu quero conhecer, cantar, pintar, tirar fotos, desenhar, viajar, ver, escrever, 'criar'. Essa é uma confissão de desejos que estão sendo no momento afogados lentamente para um futuro 'eu', um 'eu' que se mobilize hoje ou amanhã ou qualquer dia talvez para não deixar que o pouco de minha história que se traçou se perca de forma insignificante em meio às exigências de uma sociedade doente.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Review 5


Lacuna Coil - Dark Adrenaline

Comentários gerais sobre o álbum: Lacuna Coil é uma banda que me encanta em vários sentidos: eles são de um país que me agrada, a Itália; tem uma tradição musical diferentona dentro dos gothic metal e já tiveram suas fases ‘negras’ e, com esse álbum, acredito que estejam retornando aos antigos parâmetros. É uma banda que se enquadra nos ramos Evanescence e Nemesea da coisa, então sem muitos detalhes.

Trip the darkness: Essa música começa com o que eu chamei de tradição da Lacuna Coil e também chamo atenção para o fato de ela parecer continuar de alguma outra música. O ‘Dark Adrenaline’ usou muito mix entre as vozes femininas e masculinas e, pra mim, essa preferência já se dá de Nemesea até Epica. ‘Trip the darkness’ tem um belo uso de guitarra e o refrão repetitivo que tem a função base de bandas como essa – que não deixam de ser boas, como Rammstein.

Against you – Continua a faixa anterior e eu diria que a amplia. ‘Against you’ é uma das faixas desse álbum que eu mais gosto porque a bateria me chama atenção de início e ela usa mais mudanças melódicas. Nem preciso dizer que de 01:50 min em diante a música alcança um ponto de completo êxtase, não é? Pois ela alcança e nem precisa mudar muito, só sabe usar a guitarra.

Kill the light – Faixa que possui um começo carismático. A ênfase logo é passada para a vocalista e o questionamento básico de Lacuna – às vezes eles aprofundam isso com temas religiosos, mas nesse álbum parece mais voltado para a decepção no amor e o existencialismo -, e permanece nesse esquema até o final, o qual encerra com o vocalista direcionando certas perguntas. Música bem feita.

Give something more – “My angel is long gone, I don’t wanna pray. Give me something more to sacrifice” como pode se ver, essa é uma das únicas músicas no álbum que questionam o assunto de tema religioso, tal assunto é uma marca em Lacuna desde os primeiros álbuns com músicas como ‘Heaven’s a lie’, eles sempre procuram provocar as pessoas com algumas perguntas e sentenças. Dou destaque especial para o refrão dessa música que é muito gostoso de ser acompanhado vocalicamente.

Upside down – O vocalista também começa com crises existenciais no sentido mais ‘perdido’ do termo. A música permanece na mesma por um longo tempo, só intercalando os vocalistas até 01:47 min, espaço esse que a guitarra faz um breve trabalho.

End of time – ‘End of time’ me dá certa nostalgia e eu não sei exatamente do quê. É uma canção que começa de forma muito bonita, sabendo usar o que há de melhor na voz da Cristina em combinação com a bateria. O vocalista também não fica pra trás, sua voz não é irritante em nenhum ponto da música. É o tipo de som bom pra praticamente qualquer momento no qual você precise se concentrar porque não é perturbante. Destaque para 02:40 min, ponto no qual a música muda para dar destaque ao refrão que logo retorna, parte fantástica.

I don’t believe in tomorrow – O início cria uma vibe quase sufocantemente misteriosa e eu aprecio bastante isso, assim como essa faixa no geral. O refrão particularmente é fraco, mas o caminho feito até ele e a letra são de grande perspicácia e possivelmente viciantes. Em 02:57 min também há uma explosão do vocal e do trabalho de guitarra muito interessante para o contexto apresentado, sem falar que ela se fecha com o mesmo som etéreo de fundo.

Intoxicated – ‘Intoxicated’ não é uma faixa que me chame atenção em praticamente nada a não ser o uso de vocal continuado em alguns pontos - estratégia sabiamente utilizada -, então eu vou aproveitar para fazer um apontamento: no álbum anterior, Shallow Life, as críticas permaneceram, porém o background musical havia mudado de perspectiva assim como ocorreu recentemente com a maioria das bandas destacadas aqui, eles pegaram tendências pop e eletrônicas e souberam usar numa dose bem pequena. No entanto, como pode se ver, eles voltaram ao modo 100% deles, seja uma reclamação de fãs ou a mera reflexão do grupo (ou ambos) eu gostei.

The army inside – O final do álbum me parece não só uma perda de força muito grande como quase que a escolha consciente de que ‘essas vão ficar pro final porque não chamam tanta atenção’ e de fato não chamam. ‘The army inside’ tem um refrão legal e aquele uso do vocalista masculino bem direcionado como antes.

Losing my religion – Acho que essa letra não fala da religião como antes, mas do existencialismo em si. Claro que há alusão à perda de fé, mas vai muito além disso. “Oh life, it's bigger, it's bigger than you” e parte daí… Essa música eu também gosto bastante, embora reconheça que não foi das mais bem pensadas ela tem uma belíssima melodia e reflexão que vale pelo álbum inteiro.

Fire – Essa faixa é a menor do álbum, ela chega a fazer cócegas nos ouvidos de tão rápido que passa e eu não consigo julgá-la direito: nada excepcional sobre o instrumental, nenhuma novidade vocal, nenhum destaque.

My spirit – E o tamanho de ‘Fire’ é compensado em ‘My spirit’ uma vez que esta é a faixa mais longa do álbum com seus 05:50 min, quase 6 minutos! Naturalmente a extensão leva a pensar como preencher esses minutos de forma mais completa para que o ouvinte não se canse e vá procurar uma dose de adrenalina mais imediata. Acredito eu que a música tenha cumprido essa tarefa, ela não me cansa pelo menos, principalmente porque os refrãos (que são relativamente lentos) não duram muito tempo, o que dura mais são os intervalos sonoros mesmo. A parte em italiano com o som da Cristina abruptamente de fundo retomando a melodia são 9 em 10 vezes arrepiantes, sem falar do trabalho após isso. Conclusão de álbum de alcance mais do que aprovado.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Review 4



Nightwish - Imaginaerum

Comentários gerais sobre o álbum: Nesse álbum algumas considerações iniciais são de extrema importância. A primeira delas consiste no fato de que ‘Nightwish’ é uma de minhas bandas favoritas e tem estado no meu repertório musical há sete anos, este fator torna, naturalmente, o meu julgamento ainda muito mais tendencioso do que nas críticas anteriores. Em segundo lugar, apesar de todo o meu estranhamento inicial com a nova vocalista Anette Olzon, eu devo dizer que ‘Imaginaerum’ teve um trabalho instrumental geral e vocálico de excelente alcance, portanto eu considero esse álbum o melhor e o meu favorito da banda até agora.

Taikatalvi – Há dois elementos nessa faixa inicial que me comovem: o primeiro é o uso da caixinha de música com o instrumental mais ‘trilha sonórico’, digamos assim, acrescentado gradualmente; e o segundo é a linguagem. O uso de finlandês em Nightwish é pra mim tão efetivo emocionalmente quanto o é o uso de latim em Epica. Basicamente é isso, é uma faixa que por menor que seja não deixa de ter um trabalho fenomenal: uma parte introdutória, uma parte secundária com os preceitos de uma trilha sonora de grandes proporções e a terceira parte que contém o velho e necessário prelúdio ao folk Nightwishiano.

Storytime – Nightwish não se encontra como banda de exceção, eles também têm a sua faixa comercial e ‘Storytime’ é a da vez. O Tuomas revelou numa entrevista que escolheu ela pra promover o álbum porque crê que a mesma faz uma síntese da obra mais apropriada do que as demais canções. Até me parece um apontamento razoável levando em consideração uma gota de Imaginaerum. Eu quero dizer que ‘Storytime’ é uma faixa que pega um ou dois traços do álbum e fica brincando com eles ao longo da música toda, que fica dentro desse universo orgânico próprio. Como eu disse anteriormente eu amo esse álbum e não vejo nisso uma crítica pejorativa, muito pelo contrário, a banda foi do específico ao mais geral e inovador das mais variadas formas sem perder a harmonia. O que eu sempre gostei demais em Nightwish é o espaço pra diferentes instrumentos e melodias diversas sem criar aquele espaço mental para, sequer espreitar, ficar enjoado.

Ghost river – Não só a voz da vocalista se ampliou muito desde que entrou na banda como também as novas músicas foram feitas pensando nos alcances vocais dela, não tinha como dar errado. Outra sacada fenomenal foi que, pra criar a vibe necessária para o filme deles, a voz do Marco foi constantemente requerida e convenhamos que ele e a Anette formam um belíssimo dueto. Então vamos mapear – porque essa é uma faixa e tanto -: a guitarra de início já apresenta outro caráter ao álbum e assim a orquestra acompanha, no próximo momento a Anette canta e é o teclado que exibe o papel de incitar a imaginação para que assim, todo esse arranjo, possa desaguar no pré-refrão apresentado pelo Marco com forte presença de guitarras e a voz encorpada. O refrão também é interpretado pelo Marco e a Anette só entra com os vocais de fundo. Uma vez que o esquema inicial da música retorna, os sons utilizados são pra dar uma ideia circense, não esquecendo o parque de diversões, e isso cabe ao teclado de fundo – lembrando que o Tuomas pensou no álbum como que num passeio de montanha-russa por um lugar esquecido e mal-assombrado. O solo de guitarra em 3:26 min só começa a apresentar porque eu gosto tanto desse álbum, é um trabalho fantástico que a orquestra faz de fundo, além de colocar as crianças cantando pela primeira vez – creepy detail – e enfim, após a Anette cantar de forma diferentemente linda a bateria faz uma homenagem final no primeiro plano que te leva para um redemoinho que acaba em outro universo.

Slow, love, slow – Voltamos no ‘tempo’. Minha reação inicial ao jazz: ‘Nossa, que lixo’. Minha reação depois de ouvir Nightwish com jazz e o misto de metal: ‘Oh, meu zeus, o que tenho eu perdido por toda a minha vida?’ De longe minha música de jazz favorita. A vocalista encontrou uma vocação – se ela se interessar em seguir – que seria essa de cantar músicas mais lentas com acompanhamento de piano. Perfeito. Todas as músicas terão um propósito cinematográfico e essa eu sei que se encontra numa das recordações da personagem principal, momento esse que ela está num bar alguns anos atrás e o jogo do filme será tocar a música ou pelo menos um trecho dela no bar com a parte central da bateria contendo os ponteiros de um relógio – correlação com o retorno no tempo e tudo mais e também um dos efeitos finais da música. Destaque para 2:55 min em diante.

I want my tears back – E o que eu disse sobre o folk? Usar a orquestra com o metal sinfônico não é fácil, mas é razoavelmente aceitável. Jazz? As coisas começam a ficar mais complicadas. E o folk então? Como encaixar os instrumentos? Nightwish faz isso tão bem que se se tornasse uma banda de symphonic folk metal eu não estranharia. Então se o ouvinte tiver interesse de conhecer melhor esse estilo tão próprio que eles proporcionam de forma bem feita, essa faixa seria apropriada assim como ‘Last of the Wilds’, ‘The Islander’ e ‘Moondance’ dos álbuns anteriores. A letra faz adesões constantes à Alice in Wonderland, uma vez que a personagem principal se encontra perdida – ou não – em suas memórias. E, para que a ideia se concretize, o instrumental folk “cresce” principalmente lá para o final, momento esse em que a personagem se liberta e só o refrão de consciência do presente se repete: “Where is the wonder? Where is the awe? Where are the sleepless nights I used to live for? Before the years take me, I wish to see the lost in me”.

Scaretale – O ponto mais característico de trilhas sonoras de Imaginaerum. A ideia de usar os coros com crianças foi além da minha imaginação e expectativa e criou de fato uma atmosfera muito adesiva. A melodia de início dessa canção também é comovente, tanto com as crianças como com o instrumental. Essa é a faixa na qual a personagem principal estará tendo uma espécie de delírio e, portanto, a Anette e o Marco adotaram vozes teatrais. A ênfase vive mesmo em criar essa combinação: instrumental sinfônico, o teatro e as crianças. É incrível como os primeiros 3:45 min de música parecem passar em meros 30 segundos, a partir desse tempo é que o Marco apresenta a segunda metade da música. Depois disso, a inferência ao circo é muito apreensível. Isso tudo só criou uma curiosidade para com o filme muito maior do que tudo o que já havia sido criado.

Arabesque – Eu amo links. E aqui existe um link tríplice: ‘Scaretale’ gruda em ‘Arabesque’ que gruda em ‘Turn Loose the Mermaids’ e isso só torna impossível a tarefa de ouvir uma única dessas faixas. A admiração também convém a ser tríplice: ‘Arabesque’ já vai te levando para um mundo menos assombrado e terrível do que o anterior, mas talvez mais animado e misterioso. Essa faixa contém um grupo de vozes ritmado que não poderia existir melhor em nenhuma outra faixa senão a intermediária.

Turn loose the mermaids – Parece que ‘Arabesque’ termina sem linkar com essa, não é mesmo? Porém o segredo se encontra nas notas, a nota é a mesma num tom abaixo; isso passa a ideia mental de continuação. Eu amo tudo nessa música, o teclado de fundo, o instrumento de cordas, as batidas, a troca de melodias, o uso da voz dela de forma lenta, tudo. E principalmente a reação que eu tive ao associar o trecho de 2:34 min com o mestre Hans Zimmer na música ‘Rango Suite’, fosse proposital ou não - o que pode ser uma vez que o compositor alemão é um grande exemplo musical para o Tuomas -, comoveu-me de forma realmente muito grande. O finalzinho apresenta vocal duplo da Anette – de forma estável e de forma continuada -, fantástico e, mais pra frente o uso de palmas e violino acompanhando a frente de som.

Rest calm – ‘Rest calm’ é a magnificência na Terra, do começo ao final, a faixa mais dinâmica e organizada do álbum. Já de início você encontra um primeiro momento ritmado e ele é seguido num segundo momento pela mesma sequência com a presença de violinos, com isso você já sabe que a música conseguirá sua alma. Depois que, pra quem leu minhas revisões anteriores já sabe que, as pausas me causam ataques cardíacos e há uma pausa sucinta antes de cada refrão. Aqui também há a interligação Anette-Marco e, como podem perceber, o rearranjo constante dos instrumentos, criando, assim, uma faixa de extrema dinamicidade. É algo até estranho que se use tantas camadas numa música sem fazê-la perder o sentido: sem crianças, dueto, com crianças, sem dueto, põe teclado, tira teclado, dueto, usa orquestra, desusa a orquestra; tudo isso sem perder o selo de qualidade. Destaque para a elevação em 4:38 min.

The crow, the owl and the dove – ‘The crow, the owl and the dove’ é a faixa mais ballad do álbum. Claro que sendo Nightwish o trabalho de intercalar os sons se manterá, por exemplo o lugar do coro, da bateria, da guitarra e do violão assim como a direção da melodia, mas se dá num nível muito menor do que nas músicas anteriores. O foco aqui é mesmo no que está sendo cantado. É uma canção de uma simplicidade – simplicidade essa se comparada às anteriores – tão grande que na época que ela foi liberada na Internet eu me encantei e hoje é uma das mais ouvidas de acordo com meu site da Lastfm.

Last ride of the day – Quando eu ouvi o álbum pela primeira vez eu pensei que o Tuomas talvez devesse ter escolhido essa faixa para promover o álbum uma vez que ela é relativamente comercial por ser acelerada e tudo o mais e também transmite a ideia da montanha-russa que ele tanto quis enfatizar. Essa música não tem tanta alteração sonora, ela mantém os mesmos traços, mais ou menos como ‘Storytime’ fez, só que em minha opinião consegue ser ainda mais viciante.

Song of myself – A minha trilha sonora começa de fato aqui, não só porque ‘Song of myself’ tem alcances vocais extraordinários e o instrumental pensado em ilustrar uma cena grandiosa de cinema, mas também porque a letra é montada de forma poética e termina com um poema de verdade. Lembrando que embora recorde os sons de trilha sonora o symphonic metal se diferencia pelo peso no uso de outras cordas e isso essa faixa faz muito bem. E como toda poesia é preciso que se ouça essa música pra julgá-la de acordo com os seus próprios parâmetros, nenhuma tecnicidade analítica dada por outros pode resumir o alcance de ‘Song of myself’ pra cada um. Só deixo aqui alguns trechos do poema de Walt Whitman escolhido por Tuomas Holopainen para complementar um álbum tão artístico quanto esse:

“I see a slow, simple youngster by a busy street,
With a begging bowl in his shaking hand.
Trying to smile but hurting infinitely. Nobody notices.
I do, but walk by.

An old man gets naked and kisses a model-doll in his attic
It’s half-light and he’s in tears.
When he finally comes his eyes are cascading.

I see a beaten dog in a pungent alley. He tries to bite me.
All pride has left his wild eyes.
I wish I had my leg to spare.

A mother visits her son, smiles to him through the bars.
She’s never loves him more.

An obese girl enters an elevator with me.
All dresses up fancy, a green butterfly on her neck.
Terribly sweet perfume deafens me.
She’s going to dinner alone.
That makes her even more beautiful.

I see a model’s face on a brick wall.
A statue of porcelain perfection beside a violent city kill.
A city that worships flesh”.


Mesmo aquilo que é extremamente triste pode ser, de várias formas, lindo.

Imaginaerum – Eis a faixa que sintetiza a obra inteira, ‘Imaginaerum’ contém um traço instrumental de cada uma das músicas mais marcantes e inaugura uma mistura após a metade da canção também de forma grandiosa, sempre misturando orquestra, impulso sonoro no trabalho da bateria e do teclado e folk. Como eu disse logo de início, é quase impossível para eu criticar negativamente esse álbum pois ele combina demais com todos os pontos relevantes do meu gosto musical, entretanto é continuamente possível o desgosto do mesmo produto final combinando-o com as mais diferentes perspectivas, o ponto aqui é mais o de dividir a minha apreciação mesmo e o porquê dela.

sábado, 24 de março de 2012

Review 3



Nemesea - The Quiet Resistance

Comentários gerais sobre o album: Nemesea não se enquadra num caso diferente, a banda também mudou bastante, porém para outra direção: enquanto as outras duas bandas citadas aqui anteriormente voltaram seus sons para a rapidez, Nemesea manteve o ritmo, o que mudou foi o estilo – parte do álbum é ‘gothic metal’ ao modo antigo e parte do álbum é ‘industrial metal’, parecido com a banda no link que se segue: http://www.youtube.com/watch?v=DZc-pZ4s28M . É um estilo que eu particularmente gosto bastante, então eu fiquei feliz com essa iniciativa da banda. Também acho importante destacar que Nemesea é uma banda que eu descobri o ano passado e, mesmo que eu tenha ouvido um único álbum, teve uma facilidade enorme de entrar para as favoritas.

Caught in the middle – A introdução do álbum apresenta as duas tendências. Já com essa faixa dá pra perceber todos os sons da obra anterior, mas com uma melhoria infinita na qualidade do som. É uma faixa interessante nas pausas propositais a fim de que se crie uma atmosfera diferente com o teclado como acontece em 0:36 min e 01:16 min (que é mais longa). É verdade que há toques eletrônicos, porém em nenhum momento a banda aderiu totalmente a esse estilo ao longo do álbum.

Afterlife – ‘Afterlife’ é a faixa que a banda usou para promover o álbum, eu vejo algo bom e algo estranho nisso: é bom porque eles não saíram mostrando mudança pra ganhar novos ouvintes, e é estranho porque pareceu também um tanto de insegurança uma vez que essa faixa é bem tradicional e garantia a permanência dos fãs. Nemesea não foge muito de Evanescence, são bandas nas quais o instrumental é um acompanhamento e trabalhar o instrumental de forma profunda, quando ocorre, se dá de uma forma experimental; por isso é complicado ficar descrevendo faixa por faixa, o importante para se lembrar é que nesse álbum existe certo tipo de trabalho de início e outro depois de ‘I live’.

Whenever – Essa é a minha segunda faixa favorita. Por quê? Porque ela tem uma característica musical que sempre fez eu me apaixonar por uma música: o refrão não sobe, ele desce. Com isso eu quero dizer que o instrumental e a vocalista sobem por um segundo, mas descem juntos e se mantém na descida por alguns segundos a mais, dando destaque para esse último momento. Um efeito de fazer borbulhar os sentidos. Gosto também da faixa porque ela desloca mais o uso dos instrumentos do que ‘Caught in the middle’ e ‘Afterlife’.

If you could – Nesse ponto eu acredito que a banda tenha perdido algo. E isso porque no álbum anterior, as faixas lentas ou ‘ballads’ causavam uma comoção muito grande no ouvinte, ao ponto de ter sido justamente uma delas que me fez gostar tanto da banda. Agora se eu tivesse ouvido ‘If you could’ para conhecer Nemesea, dificilmente teria baixado as demais músicas. Usaram um instrumental que foi sendo acrescentado gradualmente, mas talvez não tenham pensado direito se a melodia alcançaria as pessoas como ‘The way I feel’ havia feito - http://www.youtube.com/watch?v=H7Agt561bi8 .

High enough – Eis um dueto muito promissor: Charlotte Wessels, vocalista da banda de ‘symphonic metal’ Delain participa dessa música. O início é um padrão de pensamento para duetos: acompanhamento de bateria e a ênfase nas vozes das cantoras. O refrão é tanto mais longo e vai ganhando reforço dos demais instrumentos justamente para ampliar o alcance de ambas as vozes. O meu comentário mais particularizado é que essa música possui duas vozes excelentes, entretanto me enjoa rapidamente.

Say – Faixa favorita do álbum. Eu gosto de como a música muda de tempos em tempos sem te confundir mentalmente: até 00:20 min uma apresentação, em 00:40 min outra ideia toma o lugar, em 01:01 min o refrão e em 1:22 min o som com a guitarra é outro; tudo isto sem te deslocar sensorialmente. Em 02:29 min começa o momento mais perfeito do álbum, o solo de guitarra me soa como uma expressão sufocada – porque grave - e que quando a vocalista retorna dizendo ‘say it like it is’ parece uma libertação. Já de 03:29 min em diante a música é finalizada de forma clássica, o agudo da Manda com o teclado acompanhando e depois o som inicial usado de forma aparentemente mais longínqua? Sensacional.

It’s over – Essa música utiliza pela primeira vez até então o vocal masculino de forma mais palpável, isso não só dá um corpo musical bem agradável como em muitos momentos eu prefiro a voz dele, principalmente de início. Destaque para o solo de guitarra.

I live – Tal faixa é outra tentativa de ‘ballad’ que falha nos mesmos pontos de ‘If you could’ e creio eu que peca ainda mais porque o refrão tem de forçar sua aceitação no ouvinte, o trabalho do piano também é um tanto estático e se você prestar muita atenção no som repetitivo que ele faz vai cansar rápido. São boas faixas amortecedoras no sentido de relaxar a pessoa dos toques anteriores e prepará-la ou para retomá-los ou para colocá-la diante de algo novo.

Stay with me – O caso aqui é o algo novo. Apresento-lhes o uso do ‘industrial metal’ em Nemesea. A tentativa foi bem ministrada: a banda mantém a identidade de ‘gothic’ e usa o ‘industrial’ nos instrumentais que geralmente ‘sobram’, ou seja, início e em alguns pontos determinados da música. De forma geral os refrãos são feitos dentro dos antigos moldes. Destaque para os sons em 02:06 min.

Rush – ‘Rush’ tem algo de especial porque entra de cabeça – no início – nessa nova tendência da banda e me lembrou muito vagamente também o começo dessa música: http://www.youtube.com/watch?v=Zce1QaicJTs . O refrão volta ao normal, mas eu ainda não decidi se esse combinou ou não. De fato, não gera em mim muita estranheza, muito embora o desaguar não seja completamente natural. Em 03:28 min os novos sons vão se desenrolando, mas não deixe de reparar no teclado ao fundo.

Release me – Novamente o ‘industrial’ é transparente até o refrão. O que eu gosto em ‘release me’ é esse compasso do plano vocal e, também, o solo de guitarra que redireciona por alguns segundos a melodia da música lá pro seu final.

2012 – É complicado se expressar sobre essa faixa porque a banda saiu cem por cento do padrão e, embora eu reconheça como favoritas ‘Say’ e ‘Whenever’, não tem uma faixa que eu ame mais a sua criação em ‘The quiet resistance’ do que essa. ‘2012’ é uma faixa etérea e poderosa ao mesmo tempo, na qual há um caráter misterioso que vai te levando pra dentro até ela se energizar lá pros 02:52 min onde você se perde de vez. Se alguém me pedisse pra escolher uma música que definisse o que é o ‘industrial metal’ seria essa.

Allein – Heli Reissenweber é quem participa dessa música. Pelo que eu entendi ele já fez covers de Rammstein e foi chamado para fazer parte dessa faixa. Eu devo admitir que achei que fosse mesmo o Till Lindemann. ‘Allein’ é uma bela faixa de finalização, o misto de voz feminina em inglês com a voz masculina em alemão fez um trabalho de uma lógica interna muito condizente. Destaque para a pausa em 03:06 min.

sábado, 17 de março de 2012

Review 2



Evanescence - Evanescence

Comentários gerais sobre o álbum: Bom, é necessário explicitar alguns pontos pessoais e alguns gerais logo de início a fim de que a crítica fique embasada de forma mais clara: o Evanescence, em minha opinião, é uma banda que só pode ser compreendida de uma forma justa se tiver suas músicas cantadas junto com a vocalista, Amy Lee. Nunca acreditei que fosse uma dessas bandas feitas só pra se ouvir, se fosse não só não geraria o mesmo sentimento como perderia demais na qualidade e alcance. Evanescence é uma banda americana de rock alternativo, então fica complicado analisar em termos de ‘trabalho’ no mesmo nível analisado nas músicas que usam grandes sinfonias – ex. Within Temptation.

De forma mais geral, há um sintoma muito presente nas bandas atuais: elas se aceleraram e se simplificaram. Acredito que isto se dê da continuidade de uma tendência mundial que tem seu processo iniciado não há muito tempo, porém com o aumento gradual da comunicação global ela vem se acentuando também na música, principalmente americana e das culturas que bebem mais diretamente dela. Se as bandas europeias tem aderido à essa maneira produtiva, como não iria uma banda dentro do próprio Estados Unidos? Eu só queria deixar esses pontos claros porque não adianta julgar essas bandas com negatividade, é uma tendência extenuada que não oferece muita frente de batalha para quem se encontra justamente no centro.

What you want: A música inicial já apresenta a tendência com o uso de um ritmo mais acelerado e de toques característicos de, digamos assim, ‘outros estilos musicais’. A apresentação do refrão, ou seja, os segundos anteriores ao refrão foram bem pensados de forma que uma parte encaixa com a outra sem dificuldade sonora. Para retornar à música eles usaram uma batida bem rápida com a bateria que também combinou com o momento. O teclado durante a música fica procurando um lugar e achei isso desnecessário, mas de resto é um bom som. Destaque para a constante mudança de ênfase da bateria.

Made of stone: A presença de instrumentos é escassa nesse álbum, no entanto eu acho que foram bem utilizados na maioria das músicas. Nessa, por exemplo, o foco todo do instrumental é somente o de acompanhar a Amy, tanto que colocaram uma segunda voz em algumas partes para querer dizer: ‘Hey, nessa música você deveria estar prestando atenção à vocalista!’ e eu acho que é bem isso, o instrumental dela não me cativou pelo menos.

The change: ‘The change’ se apresenta no primeiro minuto de música. Penso que ela cai no mesmo esquema da anterior até esse ponto, o instrumental é um mero meio, tanto que se agita quando chega ao refrão e acalma logo posteriormente a ele. Mas ela apresenta algo diferente mais pra frente em 02:12 min e vai até 02:43 min quando cria uma introdução para um refrão diferenciado.

My heart is broken: Um encaixe de faixas que mantém a guitarra e apresenta um uso devido do piano. Até 0:23 min há uma apresentação de uma das camadas marcantes dessa música, um misto de voz e piano muito bem formado. A partir de 0:24 min se apresenta outra camada: voz, guitarra, bateria e o piano mais acelerado. Em 0:55 min o piano é praticamente sufocado. Essa é uma das estratégias musicais de efeito, de forma que, quando ele retornar, cause uma impressão maior. E em 01:42 min é exatamente tal efeito que se dá. O esquema se repete com pouquíssima variação sonora até 02:51 min: primeira parte apresenta voz, guitarra e bateria, já a segunda põe o piano como pano de fundo para o momento seguinte que vai pegar as características da primeira camada – voz e piano. Sempre penso nessa faixa como uma das mais complexas e admiráveis do álbum porque envolveu muitas camadas e a troca constante de lugar dos instrumentos.

The other side – Essa música faz um misto de ênfase instrumental/voz que deve ser pensado minuciosamente como foi feito em ‘My heart is broken’. O início é simples: um compasso de bateria, a guitarra acompanhando e enfim a voz que entra pra seguir esses passos. O instrumental faz leves pausas entre alguns segundos. Eu não sei a opinião geral, mas isso sempre foi um antídoto de amor pra mim. A pausa, mesmo que realmente relapsa como é esse o caso, cria uma expectativa ínfima e que, quando é preenchida, propicia prazer.

O misto que eu disse anteriormente faz parte desse ciclo: o instrumental acompanha a vocalista até o refrão, nesse ponto ela ganha a ênfase. Mesma coisa ocorre até 02:28 min, é aí que instrumental e voz revezam a atenção do ouvinte. Nem preciso dizer que a jogada com o piano e o instrumento de cordas é brilhante, né? E eu digo jogada porque não eram instrumentos esperados e foram isolados somente para servir ao propósito de tornar a música mais agradável naquele momento. Brilhante.

Erase this – Se há duas faixas que eu não soube exatamente como interpretar são ‘Erase this’ e ‘Sick’, não soube muito na época que o álbum foi lançado e não sei ainda agora. Mas vou tentar, já que a proposta aqui é essa, explicar porque essas duas faixas não me apetecem muito. Em ‘Erase this’ eu não consigo encontrar qual foi a intenção de quem produziu, minha cabeça não sabe em qual som se manter, então ela fica indo de um lado para o outro e isso me incomoda um tanto. A faixa é agradável se o ouvinte se propuser a cantá-la, principalmente porque há um clímax em 02:18 min que é gostosinho de acompanhar.

Lost in Paradise – Masterpiece. É a primeira música desacelerada no álbum até então, a introdução lenta com o piano é, no mínimo, muito relaxante. A faixa é linda, muito bem composta. É o que eu chamo normalmente de uma faixa harmônica – isso quer dizer que tudo encaixa sonoramente de forma a te incluir na música e não te deixar nela de forma passiva, na de um ouvinte. Para isso, ela te toca não só no uso dos instrumentos mas também na letra e na forma como esta é utilizada. A guitarra veio a calhar porque é uma intensificadora nas emoções que a música já tinha oferecido. Essa faixa dispensa análise detalhada, ela é perfeita por si e eu espero que todos que a ouçam possam sentir-se de forma similar sobre ela. :)

Sick – A ‘Sick’ já me gera um desgosto diferente se comparado ao gerado por ‘Erase this’. Essa música começa de uma forma apreciável e lá pra 0:40 min ela muda a ideia que havia direcionado naqueles primeiros segundos. A repetição de frases e a agudeza acelerada na voz da Amy fizeram com que a faixa destoasse do padrão de músicas do álbum. Por um lado isso é bom porque mostra uma capacidade de ir além da banda, por outro ela gera um sentimento de estranheza que, eu pelo menos, ainda não consegui superar. Talvez a colocação da nova ideia não tenha ficado boa como uma faixa oito, talvez fosse melhor tê-la colocado para fechar o álbum.

End of the dream – Ah, a arte de deixar a bateria em um plano superior ao da guitarra. Então, veja bem, ‘End of the dream’ é uma música bem intensa: ela tem a proposta de uma ênfase diferenciada que, como eu explicitei, é na bateria e que frequentemente intercala com a vocalista. Portanto, é uma música equilibrada, o que é complicado no campo do rock porque não se pode deixar muito a guitarra de lado. O destaque é voltado para essa ‘diferenciação’.

Oceans – É engraçado como existe certo padrão musical: a faixa ‘comercial’, a ballad, a que rememora os álbuns anteriores e a que traz as novas tendências. Isso é quase tão sintomático que é difícil não acabar classificando. ‘Oceans’ é a faixa que mixa as tendências novas com os traços do Evanescence anterior. É uma canção que eu particularmente gosto muito. Ela se inicia com um vocal ritmado e demora relativamente a introduzir o uso de guitarra, também deixa em evidência o baixo em algumas partes. A utilização de uma segunda voz exatamente do jeito que foi colocada deu a ideia do movimento de oceano, ou pelo menos assim me pareceu e, embora a música seja repetitiva no âmbito do refrão, ela tem algo de inovador a oferecer nos pontos que destaquei.

Never go back – Essa é outra faixa que nada tem a acrescentar e é bem parecida com a anterior: bateria e guitarra em primeiro plano e dá para ouvir um baixo se agitando logo de início e em algumas partes localizadas; difere de ‘Oceans’ só no aspecto de não introduzir as novas tendências, todo o resto do instrumental já foi bem reutilizado ao longo do álbum. Destaque para 02:24 min com uma nova forma de sequenciar piano, voz e bateria.

Swimming Home – ‘Swimming Home’ é a música lenta dentro da nova tendência musical. A batida seguida de uma letra romântica já é ouvida com frequência nas rádios mundiais e é a mesma fórmula usada de formas delicadamente diferentes – over and over again. Penso que o que há para oferecer nessa faixa é somente a voz da Amy.

PS: Há uma faixa extra que vale muito a pena conferir: ‘Say you will’, ela cai dentro do estilo mais Fallen de fazer música.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Review 1




Within Temptation - The Unforgiving

Comentários gerais sobre o álbum: eu penso que a ideia toda de construir um álbum musical em cima de uma história em quadrinhos foi realmente brilhante, porém a qualidade da produção sonora gerada pela voz da Sharon den Adel diminuiu em alcance de forma igualmente proporcional. Então dá pra se dizer que é um álbum devidamente equilibrado, perdeu ali e trouxe algo de novo aqui.

Shot in the dark – O início dessa música gera uma expectativa muito grande sobre o álbum, penso eu, e nem preciso dizer que o vocal pausado ajuda nesse efeito, não é? Como ocorre em geral nas faixas do álbum em questão, o fundo musical é raso, no sentido de poucos instrumentos; mas rico no que dá pra tirar de cada um deles. O direcionamento é voltado para o refrão de forma que dessa música é basicamente isso que dá pra tirar: ela vai até o refrão de forma pausada, ganha vida, volta do refrão com energia, mas ainda pausado e em cada um dos refrãos recobre a dualidade. Total destaque nessa faixa para o vocal pausado.

In the middle of the night – Essa música se inicia como se ela desse continuidade à energia apresentada na anterior, tanto que ela é justamente mais acelerada. Nessa faixa a banda apresenta de fato a mudança musical deles: a melodia entre o não-refrão e o refrão não precisa ser necessariamente harmônica como antes era de forma que costumava conectar uma parte à outra sem qualquer estranheza, isso já não ocorre mais. A ligação existe, só que não ocorre da mesma forma. Afinal, é um tanto esquisito o refrão subir de forma demasiada, embora os tons combinem, ou seja, é diferente mas em nenhum aspecto forçado. Destaque para as partes de guitarra e teclado pós-refrão.

Faster – Faster é a faixa mais comercial do álbum. É compreensível por que a escolheram para promover o álbum uma vez que ela é fácil de ser decorada e tem um instrumental bem catchy. Ela é o melhor exemplo do que eu disse anteriormente sobre uma música que encaixa no refrão sem estranheza, é um desaguar natural inclusive que acontece nessa única música por razões não tão complicadas de serem entendidas como explicitado anteriormente.

Fire and ice – A primeira música que desacelera o álbum e te introduz num novo ritmo é essa. Música linda e muito bem trabalhada por sinal. Ela trabalha, de forma inédita nesse álbum, a voz da Sharon em primeiríssimo plano. Destaque para uma primeira metade de música que não precisa te convencer de absolutamente nada. A segunda metade já retorna aos poucos para preparar o ouvinte em relação à música seguinte, com um acompanhamento ritmado de bateria e coro.

Iron – E chegamos à minha faixa favorita. Iron é a música mais complexa do ‘The Unforgiving’ e por isso mesmo ela me lembrou bastante dos trabalhos anteriores e ajudou a matar a saudade da sinfonia costumeira. Existe um jogo instrumental que funciona em ciclo: as guitarras, o teclado e o vocal repetem-se até chegar em 03:26 min, momento no qual ocorre o clímax não só da música mas também, e principalmente, do álbum – uma vez que essa é a faixa que divide o álbum na metade. No final da faixa o tom da vocalista desce um pouco, o que torna a música de longe a mais forte e marcante dessa obra.

Where is the edge – Veja bem que Iron se encontra entre as duas faixas mais lentas não por mera coincidência, isso a torna especial bem como destaca ambas ‘Fire and Ice’ e ‘Where is the edge’. Essa faixa introduz alguns traços da música eletrônica, os quais serão a ênfase da faixa que a segue. No entanto, o destaque de ‘Where is the edge’ é difícil de classificar porque é uma música que combina um refrão longo com pequenos detalhes eletrônicos, portanto é uma inovação da banda por si só.

Sinéad – Se podia ser difícil reconhecer traços eletrônicos em ‘Where is the edge’, ‘Sinéad’ não deixa quaisquer dúvidas: você estará entrando num ambiente novo, descolado, uma mega mistura de rock clássico do estilo anos 80 com as danceterias atuais. Ela te mergulha numa mera introdução que se prolonga até 01:35 min e retorna em 02:21 min. E é de fato uma inovação pro Within Temptation que possui uma ideia excelente, porém ela peca no sentido amortecedor da música, a faixa não tem nenhum ponto realmente forte e a letra que tende a rimar de duas em duas frases pega, mas não cativa.

Lost – Outra separadora de oceanos. Essa é outra faixa que deixa a voz da Sharon em evidência uma boa parte do tempo e tem um refrão muito bonito. O acompanhamento dos instrumentos também não é gigante, somente o necessário. Acredito eu que essa faixa foi mais pensada no sentido de fazer a letra tocar os ouvintes porque ela aperta os botões certos para tal: a mudança de tom no final do refrão e a entrada de uma voz cantada de forma mais chorosa de fundo são elementos que juntos funcionam de forma a gerar certa angústia. A repetição de “buried alive” mais isoladamente também contribui de maneira direta para a execução de tal efeito.

Murder – Eu disse separadora de oceanos antes porque ‘Murder’ e ‘A demon’s fate’ recobram bastante as características das primeiras faixas. ‘Murder’ por exemplo é uma música mais acelerada de traços sonoros agudos que dão exatamente a ideia de que alguém pretende matar e a voz mais grave da Sharon contribui bastante pra isso, pelo menos de início. O refrão muda um pouco sobre o tom de voz, o qual está bem normalizado. O final da música é fantástico também no trabalho com a guitarra. Destaque principal dessa faixa para a ideia brilhante de sons curtos que reproduzem o que parecem grupos de pessoas gritando logo após o primeiro refrão, o que combina bastante com a vibe da canção.

A demon’s fate – Já ‘A demon’s fate’ é uma música que ricocheteia entre o metal sinfônico e as tendências de discoteca usadas em ‘Sinéad’. É outra combinação forte nos moldes acelerados da atualidade que mantém o quê da própria banda, e diferente da ‘Sinéad’ essa faixa tem algo marcante entre 03:42 e 04:10 min. De forma geral eu acho que essa música sintetiza a maioria das tendências que eles procuraram usar ao longo do álbum intercalando o que havia de tradicional no som deles com o que eles apresentam de novo.

Stairway to the skies – Nem preciso dizer que o nome é uma homenagem ao Led Zeppelin, preciso? Como agradecimento à inspiração pelo rock dos anos 70-80 essa faixa é um tributo. É uma música bem lenta que abusa do fator antes citado: a música não te prepara para o refrão e ele distoa bastante da mesma, o que não a faz nem um pouco menos aproveitável do que as demais, muito pelo contrário. O gostoso dessa música é que ela não possui nada de comercial, ela é o que ela é e tem pra oferecer um grande impulso de recomeçar o álbum.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Fósforos na Chuva.

Às vezes eu penso que existe uma parte do ciclo que perpassa as pessoas na qual elas são como fósforos e estão na chuva. Eu não sei dizer exatamente qual seria o gatilho mais forte pra fazê-las pegar fogo novamente, mas sei que existem vários graus deles agindo sobre as mais variadas pessoas. Talvez - e só talvez - o mais forte seja de fato a própria pessoa.
O problema é que ela tem passado tanto tempo na chuva que já criou uma casca chamada conforto e ela nem lembra mais como era brilhar e se sentir aquecida. Ela olha na rua e vê outros fósforos de passagem, eles não a servem de exemplo porque sempre está chovendo e a diferença vive naqueles que ficaram na chuva e naqueles que só estão passando por ali. Mas como saber?